
Sónia Duarte Lopes: "O tráfico de bebés na internet tem vindo a crescer”
Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, Sónia Duarte Lopes, psicóloga clínica e coordenadora regional da Delegação de Lisboa da Associação para o Planeamento da Família, desmonta alguns dos maiores mitos em torno de um dos crimes mais lucrativos do mundo. "A invisibilidade do tráfico de seres humanos não existe apenas para quem está de fora. Muitas vezes, as próprias vítimas não reconhecem que estão a ser exploradas", afirma. Um especialista explica que a vulnerabilidade é a principal arma dos traficantes. “As vítimas de tráfico humano estão, invariavelmente, em contextos de vulnerabilidade”, sublinha. A pobreza, a falta de educação, o desconhecimento da língua e dos direitos próprios levam muitas pessoas a aceitarem situações de exploração na esperança de uma vida melhor. “Acreditam que, se se sujeitarem, virá a recompensa”. Uma crença que se começa a discutir quando surgem os invariáveis ciclos de violência, as ameaças e o medo pela própria vida. Um dos exemplos mais marcantes relatados por Sónia Duarte Lopes é o de uma vítima de escravidão em território nacional. "Uma pessoa esteve 18 anos a ser explorada numa quinta de pessoas abastadas. Quando foi retirada, já não se lembrava nem do nome das cores, nem conseguiu contar até 10, tal era o isolamento e os maus-tratos executados." O caso ilustra uma realidade muitas vezes difícil de compreender para quem está de fora, incluindo as autoridades. "Não é a porta aberta que faz com que elas fujam. O que as prende é uma vulnerabilidade tão profunda que não permite pedir ajuda." Nestes 50 minutos de conversa, aborda ainda a exploração sexual de mulheres e meninas, uma realidade marcada por mecanismos de controlo psicológico. “Invariavelmente, essas mulheres ficam isoladas, muitas vezes nem sequer sabem o sítio do país em que estão. São ameaçadas pela vergonha de serem denunciadas à família”, explica. "Há muita coação psicológica e muita dificuldade em romper com o que se está a passar." Os perigos do recrutamento através das plataformas digitais são outros dos temas envolvidos, a par de fenómenos emergentes, como a venda de bebés através da internet. “A venda de bebés tem vindo a surgir nos últimos tempos, e não me admiro que apliquem mais casos, porque é muito difícil chegar a quem está por trás”, alerta, referindo o escudo do anonimato e a exposição proporcionada pelas redes sociais. Desafiando a ideia de que o tráfico de seres humanos é um problema distante, Sónia Duarte Lopes realça uma realidade incómoda: há portugueses a serem traficados em Portugal. Aliás, o número de casos sinalizados por cá tem registos batidos, tal como mostramos os dados do último RASI. Aqui ou além-fronteiras, nenhum centro de todas estas formas de exploração está sempre o exercício do poder sobre quem se encontra numa posição mais frágil. “Mas é importante perceber que o uso do poder sobre outra pessoa não precisa de ser físico. Muitas vezes é um poder psicológico, estrutural”, afirma. “Pode vir do simples fato de uma pessoa ter uma posição social diferente e a outra estar numa situação de grande vulnerabilidade.” See omnystudio.com/listener for privacy information.




