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Sala das Máquinas

Carlos Mattos

Onde a engenharia real acontece — longe do palco, perto da máquina. A Sala das Máquinas em áudio: Travessias narradas pelo autor sobre carreira internacional em tecnologia, Bancadas selecionadas sobre arquitetura e engenharia de software, e em breve o Convés — entrevistas longas com quem constrói de verdade. Por Carlos Mattos: CTO regional para a América Latina, autor de O Código Invisível, 25 anos construindo software para bancos no Brasil, EUA, Europa e México.

saladasmaquinas.substack.com
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  • 17 episodes
  • Avg 37 min
  • Portuguese
  • August 21 · 1 hr 53 min

    Trabalhar fora é uma coisa. Mudar para fora é outra.

    Luis Trochmann passou cinco anos atendendo uma gestora do mercado de capitais de Chicago sentado em Sorocaba. No primeiro ano desse projeto ele não falava inglês. Nenhuma palavra. Ele entrou no time porque duas pessoas disseram ao cliente que ele daria conta, e ele passou os primeiros meses respondendo por escrito o que não conseguia dizer em voz alta. Em novembro de 2019 ele mudou para Chicago. Sexta-feira ele fechou a loja no Brasil, segunda-feira abriu dentro do cliente. O trabalho era o mesmo. O resto não. Quatro meses depois o mundo fechou. Este Convés é sobre os dois lados da mesma conta. Quase todo mundo que sai do Brasil sai trocando de empresa. Luis atravessou por dentro: mesma casa, mesmo cliente, endereço diferente. Isso resolveu o lado profissional e não resolveu nada do resto. A frase que fica do episódio é dele: trabalhar para fora é uma coisa, mudar para fora é outra, e quem confunde as duas volta. Tem também a parte da máquina. A migração de 2014, quando um grupo de fundos comprado veio junto com os sistemas que o sustentavam e com um processo inteiramente manual. O cliente que já fazia CI/CD antes de o mercado descobrir a sigla e que pediu para derrubar tudo e recriar do zero, só para provar que a documentação estava certa. E a cena que virou o resto da carreira dele: o arquiteto do cliente mandou dois links por mensagem, disse “Chef, Luis. Luis, Chef. Agora você conhece”, e deu duas semanas. Ele aprendeu Ruby nesse prazo, apresentou para uma sala de arquitetos e saiu suado. A ferramenta que ele defendeu naquele dia virou o padrão da empresa inteira. Metade da carreira dele foi construída sobre ferramentas que hoje quase ninguém instala. Chef, Chocolatey, TeamCity, VSTS, Windows Forms. Perguntei o que sobrou. A resposta dele é a melhor defesa de infraestrutura como código que eu ouvi em muito tempo, e não menciona nenhuma ferramenta. No fim a conversa vai para inteligência artificial, e o Luis diz uma coisa que quase ninguém está dizendo em voz alta: processo determinístico não precisa de IA. Automação de infraestrutura é determinística. A IA ajuda a escrever a automação e ajuda a ler o que ela devolve, mas não é ela quem executa. Falamos também do agente de análise de crédito que derrubou quatro dias para menos de um minuto e para na porta da aprovação, porque o regulador quer nome e CPF de quem assina. E do dado que incomoda: menos de dez por cento das empresas conseguem mostrar retorno de IA. O resto está no purgatório das provas de conceito. A conversa dura quase duas horas e não cabe em resumo. Da Sala. Atravessar dentro da mesma empresa resolve o crachá e o visto. Não resolve o primeiro ano em que você tem quinze anos de carreira e nenhum histórico. Trabalhar para fora é uma coisa. Mudar para fora é outra. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Sala das Máquinas es una publicación que cuenta con el apoyo de sus lectores. Para recibir nuevas publicaciones y apoyar mi trabajo, te invito a que te conviertas en suscriptor, ya sea de forma gratuita o de pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • August 17 · 12 min

    Desta vez, o instituto acertou no alvo

    Um agente de inteligência artificial analisa uma empresa em quarenta segundos, monta o caso com evidência e conclui que o limite de crédito daquele cliente deveria subir. A recomendação entra numa fila. Quatro dias depois, quando o limite novo entra no sistema, o cliente já pegou o dinheiro em outro banco. O modelo funcionou. O dinheiro não se mexeu. Neste episódio eu começo desmontando a explicação fácil, a de que isso é problema de integração. É, em parte. Você integra os sistemas, tira o chamado do meio do caminho, e os quatro dias viram quatro horas. Ganho real. Só que a medida que interessa, quantas recomendações viraram limite novo de verdade, não se mexe. Porque no fim da fila ainda tem uma pessoa, e ela não está lenta. Ela está lendo, porque o nome no documento é o dela. Só depois disso eu chego ao relatório. O Forrester deu nome ao problema em Mind The Agentic Action Gap, e desta vez o instituto acertou: sem previsão de 42% até 2029, sem casa decimal fingindo rigor. O diagnóstico é honesto e mensurável. Meu desacordo é com a receita. O relatório trata a pessoa que sobrescreve o agente como atrito a eliminar e mede confiança pelo percentual de recomendações executadas sem ninguém mexer. Num banco, essa pessoa muitas vezes é o controle funcionando como foi desenhado, o quatro-olhos, a alçada, o oficial de crédito que veta o score. Otimizar esse indicador no automático é remover o próprio controle e chamar isso de progresso. Existem dois atritos, e eles se parecem. O atrito burro é dívida de integração e comitê que se reúne na quinta porque sempre se reuniu na quinta: esse você mata sem dó. O atrito de controle é exigência de norma: esse você não mata, você torna mais barato e mais rápido. A resposta certa para setor regulado está numa única linha do próprio relatório, e é a linha que eles deviam ter escrito primeiro. Eco O action gap é real; num banco regulado, tem piso. A última polegada é a pessoa que responde pela decisão. Isso é o trabalho, não a fricção. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Sala das Máquinas é uma publicação mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • August 14 · 13 min

    1 bilhão de agentes, e nenhuma pergunta difícil

    Um agente compra uma passagem. Trezentos e oitenta reais, no cartão de um cliente seu, três da manhã, sem que ninguém do outro lado tenha digitado nada. Essa frase cabe num slide. Este episódio desce até onde ela acontece de verdade. Antes de falar do relatório, eu abro as cinco camadas que um banco precisa resolver para deixar um agente fazer uma única compra: quem está comprando, com que autoridade, como o antifraude reage a um tráfego que não tem ritmo de gente, o que acontece com o estorno quando o cliente diz “fui eu, sim, mas ele comprou errado”, e o momento em que o agente vira modelo e passa a ter dono, documentação e uma pergunta do regulador dezoito meses depois. Nenhuma dessas cinco é protocolo. O protocolo é a parte fácil. Só então chego ao FutureScape do IDC sobre a era agêntica — o relatório que prevê mais de um bilhão de agentes até 2029 e tem número para tudo, com casa decimal. Ele repete, no varejo, o mesmo erro que o Gartner cometeu no mainframe: confunde a camada visível com a parte difícil. E, no fim, tem coisa aproveitável lá dentro. Eu separo o que fica e o que vai fora. Eco. A casa decimal não mede o mercado agêntico. Mede a pressa de quem ainda não entendeu esse mercado. E a única pergunta que o relatório deixou sem número é justamente a que decide se todas as outras viram estratégia: quando o agente comprar errado, quem responde. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Sala das Máquinas é uma publicação mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • August 12 · 13 min

    O que ficou não foi a palestra

    O auditório da Fundação Bradesco perdeu energia minutos antes da minha primeira palestra. Não havia gerador. Abriram as cortinas das janelas amplas, a luz natural entrou, e eu palestrei assim: sem projeção, sem o portal na tela, sem a apresentação que eu tinha montado. Sem nada para me esconder atrás. Quem tinha acabado de descer daquele palco era Mário Sérgio Cortella. Este episódio da Travessia nasceu de um vídeo do Clóvis de Barros Filho, que conta a primeira vez que enfrentou uma plateia grande — oito mil pessoas, o encontro com John Nash no camarim, o veredito, a plateia de pé no final. É um relato sobre o triunfo, e ele me devolveu uma lembrança que termina de outro jeito. Não houve oito mil de pé. Não foi a melhor palestra do mundo. O Cortella veio no fim, cumprimentou, disse que eu tinha ido bem — e eu sei ler a diferença entre gentileza e espanto. Foi gentileza. E é exatamente por não ter sido triunfo que aquele dia me ensinou o que ensinou: o gesto de quem me apoiou não era palpite sobre o meu desempenho. Era independente dele. Doze anos depois, em Londrina, abri o código de um sistema do setor público que a empresa cliente desconfiava do próprio time para validar. A arquitetura estava madura, com DDD aplicado num nível que eu não esperava encontrar ali. Era de um funcionário deles. O que fiz em seguida foi só devolver o que tinham feito comigo, naquele auditório sem energia. Neste episódio: o camarim do Clóvis · a antessala com o Cortella · a ironia de falar de tecnologia sem nenhuma tecnologia funcionando · o que sustenta alguém no palco quando o slide some · Londrina, 2012, e a porta que se abre sem cobrar retorno. * 0:00 O vídeo do Clóvis e o senhor do camarim * 1:06 John Nash: a frase e a primeira fila * 1:52 Sorocaba, anos 2000: repertório sem palco * 2:32 O convite do Klick Educação — Fundação Bradesco * 3:13 Cortella na antessala e a conta errada do estreante * 3:48 Arrogância, medo e o vento do navegante * 4:41 A ironia: falar de tecnologia sem tecnologia * 5:09 Nos bastidores — e o auditório perde a energia * 5:54 Sala das Máquinas · Travessia * 6:37 A instrução do Cortella e o terreno conhecido * 7:20 Ele ficou na plateia * 7:33 Onde a minha história se separa da do Clóvis * 9:07 Essa é a travessia: as duas coisas que carrego * 9:47 O apoio que não mede suas chances * 10:16 Londrina, 2012: a arquitetura do Joel * 11:11 A porta aberta — a entrevista, o inglês, a Irlanda * 12:22 Transmissão não acaba * 12:56 Onde encontrar a Sala A versão escrita desta Travessia está no arquivo da Sala. O episódio também está no feed de podcast da publicação, no Spotify e no Apple Podcasts, e em vídeo no YouTube. Bússola Quem te apoia no escuro não está apostando no seu acerto. Está fazendo o que se faz, e o que fica não é a sua estreia: é o gesto, que você devolve pelo resto da carreira. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Sala das Máquinasé uma publicação mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • August 12 · 14 min

    Traduzir COBOL é a parte fácil

    São 3h40 da manhã e tem um lote de trinta anos rodando dentro de um banco. Ele precisa fechar antes das seis, porque às seis o banco abre e às seis e meia a liquidação do dia depende do arquivo que ele está gerando. É desse lote que ninguém fala quando a conversa vira “a inteligência artificial resolveu o COBOL”. Em fevereiro a Anthropic publicou um playbook de modernização de código, e o mercado entendeu que a barreira do mainframe tinha caído. O Gartner respondeu com um First Take dizendo que traduzir COBOL para Java não é modernizar um mainframe, e que o investimento de verdade está em infraestrutura, arquitetura, resiliência e conformidade. Está certo. Eu assino embaixo, linha por linha. E mesmo assim os dois lados estão discutindo a fatia errada do problema. Nenhum dos dois para para perguntar se o código era o problema. Neste Sonar eu meço esse ponto do radar de dentro da sala de máquinas: o que o relatório acerta, o que ele deixa de fora por razão estrutural, porque analista avalia ferramenta e mercado, e o resultado de uma modernização não é decidido pela ferramenta, e onde a inteligência artificial de fato muda a conta num programa de modernização em serviço financeiro regulado. Não é na tradução. É na descoberta: reconstruir a regra de negócio que se perdeu, gerar os testes de caracterização que travam o comportamento atual antes de você encostar em qualquer linha. Especificação ao contrário. Isso não é acelerar a digitação. É tirar risco do projeto. Capítulos: 0:00 São 3h40 da manhã e o seu sistema está acordado1:37 A reunião de board: cinco anos viraram nove meses2:13 O que não está no slide3:01 A resposta correta dos adultos da sala3:37 Ninguém que faz modernização achou que traduzir era o difícil4:27 Bala de prata contra complexidade: duas turmas, a fatia errada5:11 O código nunca foi onde estava o dinheiro5:48 Sonar · Sala das Máquinas6:40 O First Take do Gartner sobre o playbook da Anthropic7:41 Diagnóstico certo, alvo errado8:10 O trabalho de verdade: descobrir o que o sistema faz9:02 Testes de caracterização: a especificação ao contrário9:43 O ponto cego estrutural do analista10:42 Complexidade é o produto que o instituto vende11:11 A prova de conceito que não dói não testa nada12:04 De volta às 3h40: o que fazer com isso13:02 Eco: caro é descobrir o que o legado faz13:34 Onde continuar a conversa Fontes: Gartner, First Take: Anthropic Claude Code Playbook Is No Silver Bullet for Mainframe Modernization (fev/2026) - https://www.gartner.com/en/documents/7501153 Anthropic, How AI helps break the cost barrier to COBOL modernization — https://claude.com/blog/how-ai-helps-break-cost-barrier-cobol-modernization · Anthropic, Code Modernization Playbook — https://resources.anthropic.com/code-modernization-playbook A versão em vídeo está no canal da Sala no YouTube. Eco. Traduzir o legado sempre foi a parte fácil. Caro mesmo é descobrir o que ele faz — e é só nessa descoberta que a inteligência artificial tira risco do projeto. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 23 · 1 hr 25 min

    Não existe algoritmo de compressão para a experiência

    Rafael Suguihara consertava rede em Santo André até 2011. Hoje dirige o Centro de Excelência de AWS da GFT na Flórida, construindo nuvem para bancos, corretoras e seguradoras em três continentes. Neste Convés, ele e Carlos Mattos reconstroem a travessia inteira — do ABC paulista ao mercado americano de serviços financeiros — sem roteiro de relações públicas. É uma conversa sobre ofício e sobre carreira. Sobre a aposta em nuvem quando ninguém no Brasil sabia o que era AWS; sobre cortar US$ 45 mil por mês da conta de um cliente e por que o arquiteto não pode ser “de PowerPoint”; sobre a migração que quase deu errado por causa de um slide; sobre provar tudo de novo ao mudar de país, porque experiência não se herda; sobre o que a certificação realmente valida; e sobre o que a inteligência artificial muda — e o que ela não muda — para quem trabalha em indústria regulada. No meio de tudo, a história de como uma raspadinha de internet em Cuba mudou o rumo de uma carreira. Um aviso: a frase que dá título ao episódio é do Andy Jassy, da AWS — “não existe algoritmo de compressão para a experiência”. O episódio inteiro é uma demonstração dela. Este é o Convés #004 da Sala das Máquinas. A versão integral, o Convés sem corte, está disponível para assinantes. Sala das Máquinas é uma publicação mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 21 · 15 min

    Reputação técnica se constrói no escuro.

    Poucos sabem que eu não tive educação formal em tecnologia. Em 1990, no primeiro ano do governo Collor, uma mudança na jornada dos bancários provocou demissão em massa no setor — metade do mercado. Eu fui desligado na terceira onda do Banco Nacional naquele ano. Meu primeiro filho tinha quatro anos, e ficar desempregado não era opção: aceitei qualquer trabalho — vendedor, cobrador, segurança, digitador, às vezes dois no mesmo dia. O que veio depois foram anos aprendendo pelos manuais que ninguém tinha aberto, pegando ônibus para São Paulo atrás de livro importado que demorava duas semanas, apanhando três vezes numa prova de certificação até aprender a estudar de verdade. Nada disso aparecia na folha de pagamento. E é esse o ponto inteiro. Esta é a Travessia #006 — agora em áudio. Uns quinze minutos que vão de um aviso de demissão em 1990 ao convite para Microsoft Regional Director — e ao que se acumulou, invisível, no caminho. É a outra metade de uma carta que já saiu aqui, sobre o tempo que ninguém te paga para investir. Esta é sobre o que esse tempo deixa quando passa: uma reputação técnica que ninguém persegue de propósito — ela chega anos depois, no rastro do trabalho que ficou. Aperte o play. Ou leia a carta, no arquivo da Sala. Neste episódio Do chão da demissão de 1990 até o primeiro contato com tecnologia numa mesa colada ao CPD da Brahma, onde aprendi Lotus 123 pelos manuais que o supervisor não deixava abrir. As primeiras certificações — 614 pontos de 614 no exame de Access, e três reprovações no Visual Basic até entender que a prova exigia muito além do uso diário. Como se estudava antes de Stack Overflow e YouTube: ônibus para a Paulista, Livraria Cultura, sábados no Seminar Group da Microsoft. E a virada que não veio de nenhum projeto: em 2001, ao reproduzir um artigo da revista Forum Access, encontrei uma quebra de contrato entre duas versões preview do .NET, escrevi um documento cuidadoso para o editor — e no dia seguinte Daniel Burd, dono da revista, ligou me convidando a escrever. Dali saíram os seis primeiros lugares do Top 10 do Sharepedia, o MVP em 2003, doze anos no programa, e o convite para Regional Director em 2017. O reconhecimento veio sempre atrás do trabalho — nunca na frente. Capítulos (marcações do áudio publicado) * 00:00 — A outra metade da história: o tempo que ninguém te paga * 00:15 — 1990: demitido do Banco Nacional, um filho de quatro anos * 01:18 — Brahma e o CPD: aprender Lotus pelos manuais que ninguém tinha aberto * 03:16 — As primeiras certificações: 614 de 614 — e três reprovações * 04:30 — Como se estudava: ônibus a São Paulo, Livraria Cultura, sábados na Microsoft * 06:12 — Quem fala aqui — e porque nada disso aparecia na folha de pagamento * 06:39 — Andrew e Votorantim: resolver de uma bancada improvisada * 09:13 — Forum Access: a quebra de contrato e a ligação de Daniel Burd * 12:24 — Sharepedia: seis dos dez mais baixados — e o e-mail de 2003 * 14:18 — De MVP a Regional Director * 14:51 — Bússola O método que não mudou Pegar o manual antes da ferramenta — Lotus, Excel com VBA, Access: em todos, o caminho foi o mesmo. Ler até dominar, com o computador ao lado, e praticar todo dia. Semanas debruçado nos livros antes de a notícia chegar à gerência. Estudar de verdade depois de apanhar — a primeira certificação passou raspando; a segunda reprovou três vezes. Foi aí que entendi que a prova cobrava muito além do dia a dia. A partir dali, preparação séria antes de cada exame — e uma nova certificação a cada dois. Compartilhar sem cobrar e sem agenda — do e-mail que apontava a quebra de contrato aos artigos, às dúvidas respondidas em fórum de graça. O título era o reconhecimento daquilo que eu já fazia, não uma licença para fazer menos. O reconhecimento seguia atrás. Bússola. O reconhecimento técnico não se persegue. Persegue você, anos depois, no rastro do trabalho que ficou. O que dá para fazer agora é simples: publicar antes de saber se vai ser visto, ajudar antes de saber se vai voltar, errar em público antes de saber se vai pegar bem. O resto chega quando chegar — e chega. Longe do palco. Perto da máquina. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Se você está construindo agora no escuro — sem saber se alguém vai ver — esta carta é pra você. Travessia às terças. Sala das Máquinas é uma publicação mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 21 · 10 min

    A stack abre a porta. Não é ela que te segura.

    Frankfurt, verão de 2020. Pandemia alta, escritório vazio, todo mundo atrás de uma tela. Era minha primeira semana como CTO da operação alemã, depois de oito anos na mesma empresa. Cheguei carregando entregas, projetos internacionais feitos, a confiança de quem foi convidado para a posição. Não falava alemão — e estava prestes a liderar um time em que um dos engenheiros tinha vinte e cinco anos de casa. Na primeira semana, um arquiteto que não era do meu time pediu uma reunião em separado. Cordialidade impecável, inglês perfeito, e a oferta de “me ajudar” com algumas observações sobre gente do meu time. Vinte minutos depois, entendi que não estava recebendo informação. Estava sendo testado. E que, se eu tratasse aquela cena como problema técnico, não duraria seis meses na cadeira. Durei cinco anos — e esta carta é sobre o que decidiu cada um deles. Esta é a Travessia #004 — agora em áudio. Uma carta, uns dez minutos, sobre o que separa ocupar um cargo lá fora de exercer a posição: a stack técnica abre a porta, disso eu não tenho dúvida, mas a porta só te coloca dentro da sala. Ela não te dá lugar à mesa. O que dá é o que no Brasil era só o meu tempero — e na Alemanha virou a única coisa que me manteve na cadeira. Aperte o play. Ou leia a carta, no arquivo da Sala. Neste episódio A cena de Frankfurt — o arquiteto que “queria ajudar” e a conversa que era um teste — abre a carta e monta a pergunta que ela persegue: o que, de fato, separa um sênior internacional de um sênior local? Não é a lista de sempre (inglês, certificação, vocabulário de brochura de relocação). São três coisas mais simples e mais difíceis: ler a sala, escutar antes de falar, aceitar que a integração toma tempo. No Brasil, isso era tempero. Na Alemanha, com o idioma, a referência cultural e a história do time todos fora do meu alcance, virou infraestrutura — o código invisível que decide se você ocupa um cargo ou exerce a posição. Tem a admissão que levei tempo demais para fazer (dominar o alemão não era opcional) e o fecho: cinco anos depois, um churrasco de despedida e o único abraço em cinco anos — a prova de uma travessia que quase não aconteceu, porque no primeiro ano eu insisti em tratar como problema técnico um problema que nunca foi. Capítulos (marcações do áudio publicado) * 00:00 — Frankfurt, 2020: primeira semana como CTO da operação alemã * 00:31 — O arquiteto que “queria ajudar” — a conversa que era um teste * 02:14 — A porta e a mesa: a stack abre uma; não garante a outra * 03:12 — As três coisas que pesam de verdade: ler a sala, escutar antes de falar, aceitar que a integração toma tempo * 05:54 — “Na Alemanha, virou outra coisa” — e quem fala aqui * 06:45 — Quando o código invisível vira infraestrutura * 07:41 — A admissão: o alemão não era opcional * 08:45 — A despedida: o churrasco, o abraço * 10:19 — Bússola As três coisas que ninguém coloca no currículo Ler a sala — toda cultura tem gramática própria de hierarquia, discordância e aprovação. O alemão sênior discorda direto quando você já é insider e silencia quando ainda não é; e o silêncio dele é cautela, não concordância. Quem lê tudo pelo manual do escritório paulista perde a leitura inteira da sala — e nem percebe que perdeu. Escutar antes de falar — o brasileiro preenche silêncio com bom humor e calor. É patrimônio, mas patrimônio mal usado vira passivo. Cada reunião tinha duas conversas: a da tela e a que vinha depois, em alemão, fora do meu alcance. A única forma de não ficar de fora da segunda camada era não ocupar a primeira com volume: falar menos, perguntar mais. Aceitar que a integração toma tempo — a confiança de um engenheiro alemão com vinte e cinco anos de casa não se conquista em trimestre; em alguns lugares, nem em ano. Você chega, faz o seu trabalho, mantém a palavra, não força familiaridade, e espera. Tempo virou uma variável que eu não conseguia comprimir. Bússola. Antes de revisar a stack para a entrevista lá fora, revise o que você nunca precisou explicar para ninguém. É exatamente isso que vai te cobrar atenção todos os dias. Longe do palco. Perto da máquina. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Se você está atravessando agora — ou pensando em atravessar — esta carta é pra você. Travessia às terças. Sala das Máquinas é uma publicação mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 21 · 13 min

    IA em engenharia de software: menos drama, mais decisão

    Um CIO puxa a planilha no meio da reunião. Não no começo — no meio, naquele ponto em que ele já acha que convenceu todo mundo e agora só mostra a prova. Na tela, uma projeção: menos 18% de gente em middle-office e operações nos próximos doze meses. A justificativa cabe numa linha — “automação de processos complexos via IA”. Eu já tinha visto aquela planilha. Não a mesma — uma versão dela, em outro banco, outro logotipo, outra capital da região. Mesmo discurso, mesma confiança, quase o mesmo número. E das duas vezes faltava a mesma coisa: uma pergunta que ninguém na sala estava fazendo. Quais desses processos, exatamente, a IA hoje sabe automatizar com risco aceitável em produção? Não estava na planilha. E era o assunto inteiro. Esta é a Bancada #005 — agora em áudio. Quinze minutos sobre por que a adoção de IA em banco grande raramente fracassa por limitação técnica — e sobre os três antipadrões que eu vejo se repetir de casa em casa na América Latina. Não é o drama da manchete, a IA demitindo em massa. É o que acontece em silêncio dentro da empresa: cortes na formação, no critério e na revisão que só aparecem na conta quando a demo vira produção. Aperte o play. Ou leia a versão escrita, no arquivo da Sala. Neste episódio Começo na cena que se repete — a planilha do corte de 18% justificada por uma linha de PowerPoint — e mostro por que ela me incomoda. Os estudos sérios ainda não conseguem demonstrar o tombo do desemprego nas ocupações mais expostas à IA; o que aparece é outro sinal, mais discreto e mais grave: a entrada de gente nova nessas ocupações começa a desacelerar. A empresa raramente demite — congela vaga, reduz contratação júnior, troca um time grande por um menor e mais experiente. E, ao cortar o custo de aprendizado embutido no fluxo, corta o mecanismo pelo qual o time se renovava sozinho. Daí saem os três antipadrões que detalho — e as três coisas que precisam entrar no lugar para quem lidera. Fecho voltando à reunião, com a pergunta que ninguém fez: na sua casa, quem é o dono do critério? Capítulos (timestamps aproximados — ajuste ao corte final) * 00:00 — A planilha no meio da reunião: menos 18% * 02:00 — A metáfora errada: porque a adoção fracassa antes da técnica * 03:30 — O que os dados mostram: não é o desemprego, é a porta de entrada * 06:00 — Quem fala aqui — e o que é a Sala das Máquinas * 07:00 — Antipadrão 1: confundir capacidade técnica com adoção segura * 09:00 — Antipadrão 2: cortar o pipeline de formação * 11:00 — Antipadrão 3: confundir velocidade com qualidade * 12:30 — O que muda para quem lidera: governança, equipe, accountability * 14:30 — De volta à reunião: quem é o dono do critério? * 15:30 — Da Sala Os três antipadrões Confundir capacidade técnica com adoção segura — a demo funciona, a POC funciona, o piloto funciona, logo “vai funcionar em produção”. Mas em banco “funciona” quer dizer passar em revisão de segurança, de modelo e jurídica, com rastreabilidade, retenção, auditoria e um humano responsável quando o output sai errado. Nada disso aparece na demo; tudo aparece na conta no fim do trimestre. Cortar o pipeline de formação achando que a IA resolveu o problema de talento — o mais grave, porque a conta só chega anos depois. Critério só se forma sob restrição; quem tira a restrição cedo demais forma um profissional rápido e frágil. O risco não é o júnior usar IA — é ele nunca desenvolver o músculo do critério porque o sistema parou de obrigá-lo a exercitar. Confundir velocidade com qualidade — quando produzir código fica barato, o valor do trabalho migra para especificar bem, reduzir ambiguidade, revisar com critério, entender risco arquitetural. O time que não faz essa transição entrega mais rápido nos primeiros meses e quebra mais alto nos seguintes. Velocidade sem revisão não elimina o defeito; só adianta. O que entra no lugar Governança — código mais barato não é software mais barato. O custo não some, migra: para validação, segurança, conformidade, rastreabilidade, observabilidade. Cortar a revisão para “capturar a economia da IA” descapitaliza justamente a parte que protege o resto. Desenho de equipe — o ganho não vem de transformar todo mundo em super dev. Vem de padronizar, reforçar revisão, melhorar teste, fortalecer pipeline, investir em plataforma interna. Quanto mais o time usa IA, mais importa ter um piso comum bem-feito. Accountability — a IA não assume responsabilidade; o time e a empresa assumem. Precisa estar claro quem decide o quê, com qual critério e com qual evidência. Não é burocracia: é proteção econômica e, em banco, regulatória. Da Sala. Adoção de IA em banco grande raramente é problema de tecnologia. É problema de arquitetura de decisão — e a primeira decisão é proteger o que ainda não existe na empresa: critério para usar bem a ferramenta que você acabou de comprar. Longe do palco. Perto da máquina. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Bancada às quintas, Travessia às terças. Até a próxima. Sala das Máquinas é uma publicação financiada pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 21 · 16 min

    Cinco noites no jornal

    O erro aparecia sempre depois da meia-noite — com o jornal a três horas de fechar a edição do dia seguinte. A tela do Access travava e mostrava a mensagem que ninguém na sala queria ver: erro 3049, banco de dados corrompido. E todo mundo já sabia o que aquilo significava. Tabelas tinham sumido. A paginação ia ter que ser refeita. Alguém ia descer para avisar o operador da rotativa que a tiragem ia atrasar. Era a quarta vez naquela semana. O sistema era nosso — três sócios de uma consultoria no interior de São Paulo, cada linha escrita à mão. Conhecíamos o código inteiro. E não fazíamos a menor ideia do que estava acontecendo. Esta é a Bancada #014 — agora em áudio. Dezesseis minutos sobre cinco noites perdidas caçando um bug no andar errado da pilha, e sobre a lição que sobrou de lá para cá: toda stack tem uma camada que você não está olhando — e é exatamente ali que o problema espera. Aperte o play. Ou leia a versão escrita, no arquivo da Sala. Neste episódio Um banco Access num jornal diário que fechava a edição de madrugada, sem rollback e sem caminho do meio — papel é deadline absoluto. Um erro de corrupção que voltava sem padrão e sem gatilho, três engenheiros de plantão noturno restaurando backup só para limitar o estrago, e uma cadeia de confiança de quatro elos — do Access ao chip da placa de rede — em que o elo que falhava era justamente o que ninguém tinha posto na lista de suspeitos. O nome técnico da falha (corrupção silenciosa de dados), a descoberta que veio por sorte numa revista impressa, a solução de uma manhã só — e por que o mesmo erro de diagnóstico se repete em 2026, com tokenizer, connection pool e DNS no lugar de uma placa Realtek de dez dólares. Capítulos (timestamps aproximados — ajuste ao corte final) * 00:00 — Depois da meia-noite: erro 3049, a quarta vez na semana * 02:00 — Sorocaba, anos 2000: o sistema era nosso * 03:30 — A investigação que não levava a lugar nenhum * 05:00 — Plantão noturno: apagar incêndio, não investigar * 06:00 — Quem fala aqui — e o que é a Sala das Máquinas * 07:00 — A cadeia de confiança de quatro elos, e o elo que falhava * 09:00 — Uma revista, uma manhã: a descoberta por sorte * 11:30 — A solução: trocar todas as placas * 13:30 — A camada presumida — e três ecos em 2026 * 16:00 — Da Sala A camada presumida, hoje O bug de 2001 morreu. O erro de diagnóstico, não. Três versões modernas do mesmo padrão — cada uma num andar que o engenheiro presumia confiável: Tokenização — o provedor troca o tokenizer entre versões menores do modelo, e o prompt que cabia na janela de contexto passa a estourar. Você presume que a contagem de tokens da sua entrada é estável. Não é. Pool de conexão — um timeout default mal configurado derruba e reabre conexões sob carga real, pagando handshake TLS a cada poucas centenas de requisições. Você presume que o driver do banco faz o óbvio. Muitas vezes não faz. DNS — a camada presumida por excelência. “Só funciona”, até parar. E quando para, você gasta horas olhando para qualquer outro lugar antes de aceitar que precisa olhar para ela. Referências O mecanismo da falha — corrupção silenciosa de dados em placas Realtek sob Windows 98 — foi documentado por Luke Chung, presidente da FMS Inc., referência da comunidade Access desde o início dos anos 1990. O artigo chegou ao Brasil pela revista Fórum Access (Editora Quark, São Paulo), publicação impressa bimestral que traduzia esses textos com créditos preservados — autor, veículo, data. Boa parte do episódio é sobre isso também: como o conhecimento técnico circulava quando a banda era lenta e a curadoria, alta. Da Sala. Toda stack tem um andar que você não olha. É lá que o problema te espera. Longe do palco. Perto da máquina. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Semana que vem eu te vejo na Bancada. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 21 · 14 min

    Seu copilot acabou de commitar uma vulnerabilidade — e ninguém revisou

    Semana passada encontrei uma vulnerabilidade num módulo que já tinha passado por code review. Sem um flag, sem um alerta. O código era limpo, bem estruturado, seguia os padrões da casa — você olhava e parecia certo. Só que não foi escrito por uma pessoa. Foi gerado por IA. E o sênior que aprovou não foi descuidado: estava afogado num volume de pull requests três vezes acima do normal. Quando o volume sobe assim, a revisão deixa de ser revisão. Vira carimbo. Esta é a Bancada #009 — agora em áudio. Quinze minutos sobre por que quase metade dos desenvolvedores commita código que eles mesmos dizem não confiar, e por que nem a Anthropic, dona do agente de código mais bem-sucedido do mercado, escapou disso. Não é um episódio sobre desacelerar a IA. É sobre o que ninguém combinou quando ela chegou: gerar código ficou barato, verificar continuou caro, e a distância entre esses dois custos virou o maior risco silencioso da engenharia em 2026. Aperte o play. Ou leia a versão escrita, com todas as fontes linkadas, no arquivo da Sala. Neste episódio Começo na cicatriz — o módulo que passou na revisão sem um flag — e sigo direto para os números do State of Code 2026: 96% dos desenvolvedores não confiam plenamente no código que a IA gera, mas só 48% sempre verificam antes de commitar. Dali, o caso que derruba o argumento de que isso é problema de time imaturo: os dois vazamentos da Anthropic em cinco dias, 512 mil linhas do Claude Code expostas por um “plain developer error” — o mesmo bug que já tinha vazado treze meses antes. Depois, o que o vazamento revelou sobre arquitetura (construir um agente confiável é 80% infraestrutura e 20% IA), os dados de segurança da Veracode, o prazo do AI Act europeu, e os três movimentos que considero urgentes para quem constrói software financeiro. Capítulos (timestamps aproximados — ajuste ao corte final) * 00:00 — A cicatriz: uma vulnerabilidade que passou no code review * 02:30 — 96% não confiam, 48% verificam: o gargalo que ninguém combinou * 04:30 — O paradoxo da Anthropic: 512 mil linhas, duas vezes * 06:00 — Quem fala aqui — e o que é a Sala das Máquinas * 07:00 — O nome do problema: gargalo de verificação, ou a industrialização do descuido * 08:30 — O segredo de um produto de US$ 2,5 bilhões é o encanamento, não o modelo * 10:30 — Código plausível não é código seguro * 12:30 — A regulação chegou: o AI Act exige evidência, não promessa * 14:00 — Três movimentos para sair da zona de risco * 16:00 — Da Sala Os números que ancoram o episódio 96% dos desenvolvedores não confiam plenamente na correção do código gerado por IA; só 48% sempre verificam antes do commit (State of Code 2026, Sonar). Pull requests com co-autoria de IA têm 1,7× mais defeitos de lógica, correção e segurança (CodeRabbit). 45% do código gerado por IA falha em verificação de segurança — XSS com 86% de falha; Java, mais de 70% (Veracode, 2025). 2.130 vulnerabilidades relacionadas a IA divulgadas em 2025 — 34,6% a mais que no ano anterior, quase metade classificada como alta ou crítica. 512 mil linhas do Claude Code vazadas; produto com receita anualizada estimada em US$ 2,5 bilhões. AI Act da União Europeia em vigor completo a partir de agosto de 2026. Fontes As referências citadas no episódio — o State of Code 2026 (Sonar), o relatório da CodeRabbit, o estudo da Veracode, a cobertura dos dois vazamentos da Anthropic, o EchoLeak (CVE-2025-32711) e a análise de Nate B. Jones — estão linkadas na versão escrita desta Bancada. Da Sala. A IA não reduz o custo de estar errado. Ela só multiplica a velocidade com que você chega lá. Sala das Máquinas é uma publicação mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 21 · 13 min

    Seu mainframe tem data de validade

    Em 23 de fevereiro deste ano, um post de blog apagou US$ 40 bilhões do valor de mercado da IBM em uma tarde — a maior queda diária da ação em 25 anos. O gatilho foi um texto técnico mostrando que uma ferramenta de IA ajuda a modernizar COBOL. O mercado leu, fez a conta de cabeça e fechou o caso: a IA matou o mainframe. Os dois lados dessa leitura estão errados. Quem comemorou a morte do COBOL e quem disse que nada mudou cometeram o mesmo erro — acharam que a parte difícil era o código. Nunca foi. Nesta Bancada eu conto por que o COBOL nunca foi o gargalo, e o que a IA de fato mudou: não o problema, mas a economia do problema. Também não escondo o que deu errado no caminho — a primeira tentativa dos meus times de transformar legado com IA foi inútil, e explico por quê, e o que passou a funcionar quando paramos de pedir tradução e começamos a extrair regra de negócio. É uma conversa para quem lidera tecnologia em banco e já sabe que a decisão de modernizar não é técnica — é de sequência, de convivência e de talento que está indo embora. Sem o hype de “trimestres em vez de anos”, e sem o luto precoce pelo mainframe. O erro não é ter COBOL. O erro é não saber em que ordem desmontá-lo. A Bancada escrita completa está na Sala das Máquinas, no Substack — com as Notas Marginais, a versão anotada onde mostro a fonte por trás de cada número que você ouve aqui, inclusive os que eu acho que estão inflados. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • S1 · E3
    July 21 · 1 hr 38 min

    Convés CVS#003: Conversa com Diego Gabriel Cardoso

    Diego Gabriel Cardoso passou mais de vinte anos construindo software para banco no Brasil, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Trabalhamos quase dez anos juntos. Neste Convés a conversa começa na sala de virada de um cutover financeiro — a tensão, o teste de centavo que falhou antes da produção — e termina no debate sobre o que a inteligência artificial muda de verdade para quem constrói. No meio, a travessia internacional vista pelo avesso, a virada da consultoria para o lado do produto na Microsoft, e a tese que os dois defendem: a profundidade técnica não virou commodity, virou o que separa quem conduz de quem só executa. Sem roteiro de relações públicas. Só a conversa. Sala das Máquinas é uma publicação mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 12 · 13 min

    A primeira war room · Travessia (TRV #007)

    A primeira vez que você lidera uma war room internacional, ninguém te avisa que o trabalho mudou de função. Você ainda acha que vai fazer engenharia. Vai fazer tradução. Novembro, Nova York, noite de cutover. De um lado, os executivos do cliente esperando apertar o botão. Do outro, o time conectado de Chicago e de São Paulo. E eu na lateral da mesa — não na cabeceira, não no centro. Era ponte. Este episódio é o relato do que aconteceu naquela sala, e das três traduções que só se aprendem ali: a técnica para o executivo, a pressão executiva para o time, e o código cultural entre o “that’s interesting” americano e o “deu ruim” brasileiro. Esta é uma Travessia — a série da Sala das Máquinas sobre carreira internacional em tecnologia, narrada na íntegra na voz do autor. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 9 · 1 hr 18 min

    Convés #002 · Conversa com Bruno Tinoco

    Clareza não é dom de comunicação. É a forma mais avançada de entender — e talvez a habilidade mais subestimada da senioridade técnica. Bruno Tinoco construiu carreira sendo o arquiteto que entra num sistema emaranhado e faz a sala inteira enxergar o desenho. Do primeiro framework web em J2EE numa companhia aérea, aos vinte e poucos, até a mesa de negócios em Nova York, essa clareza foi o fio condutor — e o que permitiu a travessia do quadro branco para o cliente. Uma conversa sobre o ofício de tornar o complexo legível: como se lê uma arquitetura pela primeira vez, o que uma migração de event sourcing em mercado de capitais ensina que o padrão nunca conta, e o que um arquiteto que foi estudar redes neurais no MIT enxerga sobre IA dentro de um banco regulado — que a manchete não vê. Longe do palco. Perto da máquina. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • July 7 · 1 hr 53 min

    Convés CVS#001 | Conversa com Pedro Lourenço

    Pedro Castelo Branco Lourenço parou de escrever código em 8 de fevereiro de 2026 — e passou a resolver mais problema do que quando escrevia. CTO da GFT na Alemanha, brasileiro que saiu da engenharia florestal e foi parar no mercado financeiro europeu, ele conversa com Carlos Mattos sobre o que muda quando o código vira commodity e o julgamento vira o trabalho: harness engineering, o gargalo que saiu da produção e foi parar na validação, e por que ele ainda contrata júnior. Primeiro episódio do Convés, a série de entrevistas da Sala das Máquinas. Transcript e versão em vídeo em saladasmaquinas.substack.com. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

  • January 5 · 5 min

    O dia em que parei de gostar de código

    Em 2017 parei de gostar de escrever código. Levou três meses pra entender o motivo. Quem trabalha com software por tempo suficiente conhece a sensação. Você abre o editor, olha pra tela, e o que era prazer virou tarefa. O código sai, os testes passam, o cliente aceita. Mas a coisa que te trazia pra mesa todo dia, sem precisar de café nem reunião de motivação, sumiu. Naquele ano eu estava liderando entregas pesadas. Projetos grandes, equipes em três fusos, prazo apertado. Achei que era cansaço. Tirei alguns dias de folga, voltei. Não mudou nada. Achei que era idade. Naquela altura eu já tinha quase vinte anos de carreira. Mas idade não explica perder o gosto pelo que você sempre amou fazer. A virada veio numa sexta à noite, sem cerimônia. Eu queria entender como rodava o Cosmos DB com a API do MongoDB. Não tinha cliente cobrando, não tinha sprint correndo, não tinha apresentação na semana seguinte. Só curiosidade. Atualizei o Visual Studio, instalei o SDK, abri o navegador e fui caçar exemplos. Quebrou na primeira tentativa. Quebrou na segunda. Na terceira rodou. Eu fiquei feliz que nem criança que acabou de armar um quebra-cabeça. Foi ali que entendi. Eu não tinha parado de gostar de código. Tinha parado de aprender. Os projetos do trabalho, por mais difíceis que fossem, estavam no meu repertório. Não tinham mais surpresa. E surpresa é o combustível, não o produto da escrita de código. Quem programa sabe disso desde o primeiro hello world: o barato é descobrir como a coisa funciona, não fazer a coisa funcionar pela milésima vez. Aquela noite com o Cosmos DB me devolveu o gosto. Voltei pro hábito de reservar tempo, toda semana, pra mexer em alguma coisa que eu não dominava. Pequeno. Sem pressão. Sem obrigação de virar palestra, post ou apresentação interna. Em 2026, o problema é o oposto Nove anos depois, tudo mudou. A pergunta que me preocupava em 2017 era “como mantenho a curiosidade num trabalho que virou repetição?”. Em 2026 a pergunta é outra: “como decido o que aprender quando todo dia sai uma ferramenta nova?”. Quem trabalha com tecnologia hoje vive afogado em novidade. O LinkedIn cospe lançamentos a cada hora. Toda semana tem um modelo novo, um framework novo, um SDK novo, um benchmark novo, um agente novo. A indústria inteira entrou em modo de gritaria. Não dá pra acompanhar tudo. E tentar acompanhar é o caminho mais curto pra outra crise: o esgotamento. Resolvi inverter o método. Em vez de correr atrás do que está em alta, voltei à pergunta que sempre funcionou. O que me deixa curioso de verdade? A resposta nem sempre é a tendência da semana. Às vezes é uma coisa antiga que eu nunca entendi direito. Às vezes é um problema do trabalho que merecia atenção e eu adiava. Às vezes é uma ferramenta que apareceu há dois anos e só agora faz sentido testar. Curiosidade não tem cronograma de release. O que aprendi nesses vinte e cinco anos é simples. A bateria do programador não recarrega com férias. Férias resolvem cansaço, e cansaço é um problema diferente. O que recarrega a bateria é descobrir alguma coisa nova, mesmo que pequena, mesmo que ninguém vá ver. Se você está nesse ponto da carreira em que abrir o editor virou obrigação, não é sinal de que a profissão acabou pra você. É sinal de que você parou de aprender. E em 2026, com tanta coisa nova batendo na porta, parar de aprender é uma escolha estranha. Você não precisa correr atrás de tudo. Precisa só achar uma coisa que te deixe curioso de novo. Bússola. Cansaço se trata com descanso. Tédio com curiosidade. Não confunda os dois remédios. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Sala das Máquinas é uma publicação financiada pelos leitores. Para receber novas publicações e apoiar meu trabalho, considere se tornar um assinante gratuito ou pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe

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