
Trabalhar fora é uma coisa. Mudar para fora é outra.
Luis Trochmann passou cinco anos atendendo uma gestora do mercado de capitais de Chicago sentado em Sorocaba. No primeiro ano desse projeto ele não falava inglês. Nenhuma palavra. Ele entrou no time porque duas pessoas disseram ao cliente que ele daria conta, e ele passou os primeiros meses respondendo por escrito o que não conseguia dizer em voz alta. Em novembro de 2019 ele mudou para Chicago. Sexta-feira ele fechou a loja no Brasil, segunda-feira abriu dentro do cliente. O trabalho era o mesmo. O resto não. Quatro meses depois o mundo fechou. Este Convés é sobre os dois lados da mesma conta. Quase todo mundo que sai do Brasil sai trocando de empresa. Luis atravessou por dentro: mesma casa, mesmo cliente, endereço diferente. Isso resolveu o lado profissional e não resolveu nada do resto. A frase que fica do episódio é dele: trabalhar para fora é uma coisa, mudar para fora é outra, e quem confunde as duas volta. Tem também a parte da máquina. A migração de 2014, quando um grupo de fundos comprado veio junto com os sistemas que o sustentavam e com um processo inteiramente manual. O cliente que já fazia CI/CD antes de o mercado descobrir a sigla e que pediu para derrubar tudo e recriar do zero, só para provar que a documentação estava certa. E a cena que virou o resto da carreira dele: o arquiteto do cliente mandou dois links por mensagem, disse “Chef, Luis. Luis, Chef. Agora você conhece”, e deu duas semanas. Ele aprendeu Ruby nesse prazo, apresentou para uma sala de arquitetos e saiu suado. A ferramenta que ele defendeu naquele dia virou o padrão da empresa inteira. Metade da carreira dele foi construída sobre ferramentas que hoje quase ninguém instala. Chef, Chocolatey, TeamCity, VSTS, Windows Forms. Perguntei o que sobrou. A resposta dele é a melhor defesa de infraestrutura como código que eu ouvi em muito tempo, e não menciona nenhuma ferramenta. No fim a conversa vai para inteligência artificial, e o Luis diz uma coisa que quase ninguém está dizendo em voz alta: processo determinístico não precisa de IA. Automação de infraestrutura é determinística. A IA ajuda a escrever a automação e ajuda a ler o que ela devolve, mas não é ela quem executa. Falamos também do agente de análise de crédito que derrubou quatro dias para menos de um minuto e para na porta da aprovação, porque o regulador quer nome e CPF de quem assina. E do dado que incomoda: menos de dez por cento das empresas conseguem mostrar retorno de IA. O resto está no purgatório das provas de conceito. A conversa dura quase duas horas e não cabe em resumo. Da Sala. Atravessar dentro da mesma empresa resolve o crachá e o visto. Não resolve o primeiro ano em que você tem quinze anos de carreira e nenhum histórico. Trabalhar para fora é uma coisa. Mudar para fora é outra. Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México. Sala das Máquinas es una publicación que cuenta con el apoyo de sus lectores. Para recibir nuevas publicaciones y apoyar mi trabajo, te invito a que te conviertas en suscriptor, ya sea de forma gratuita o de pago. Get full access to Sala das Máquinas at saladasmaquinas.substack.com/subscribe















