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Artwork for Entre Linhas e Leis
ArtsBooks

Entre Linhas e Leis

ESA OAB SP

O Entre Linhas e Leis é um podcast da Escola Superior de Advocacia da OAB SP, concebido pelo Coordenador Acadêmico, Erik Chiconelli Gomes, que propõe um encontro entre a literatura e o direito como espaços complementares de interpretação do mundo. A proposta é atravessar as fronteiras tradicionais da formação jurídica, convidando a escuta sensível, o pensamento complexo e o olhar atento às experiências humanas — sobretudo àquelas que revelam injustiças, disputas de poder e silenciamentos históricos.

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  • 20 episodes
  • Avg 17 min
  • Portuguese
  • S3 · E26
    August 31 · 23 min

    #26 | A Morte de Artemio Cruz, de Carlos Fuentes

    Em A Morte de Artemio Cruz (1962), Carlos Fuentes acompanha as últimas horas de um magnata mexicano que, moribundo, revisita sua trajetória de jovem revolucionário a oligarca corrupto. Encerrando o bloco, Erik Chiconelli Gomes lê o romance como uma análise de como o conhecimento jurídico pode servir tanto à transformação quanto à perpetuação das injustiças. A Literatura expõe o advogado-empresário que converte a reforma agrária em reconcentração de terras e a corrupção em um sistema jurídico paralelo, com regras e hierarquias próprias. A leitura conecta Fuentes aos dilemas brasileiros sobre função social da propriedade, corrupção sistêmica e, sobretudo, à ética da advocacia — tema caro à OAB-SP. No encontro entre Direito e Literatura, a obra interpela cada jurista: a competência técnica, divorciada do compromisso com a justiça, pode tornar-se instrumento sofisticado de desigualdade.

  • S3 · E25
    August 24 · 21 min

    #25 | Lord Jim, de Joseph Conrad

    Em Lord Jim (1900), Joseph Conrad parte do abandono de um navio repleto de peregrinos para investigar os limites da responsabilidade jurídica e a tensão entre a lei formal e os códigos de honra. Erik Chiconelli Gomes acompanha Jim do tribunal marítimo — que lhe cassa a licença sem ponderar suas circunstâncias subjetivas — ao território remoto de Patusan, onde ele ergue uma autoridade híbrida entre o direito colonial e as tradições locais. A Literatura revela como a autoridade jurídica nasce menos da sanção formal do que da eficácia prática e do reconhecimento cultural, e como o pluralismo jurídico gera zonas de coexistência e de conflito entre ordens normativas. A leitura conecta a obra às questões brasileiras de jurisdição marítima, responsabilização de agentes públicos e construção da autoridade estatal em territórios de fronteira. Entre Direito e Literatura, honra, responsabilidade e redenção tornam-se categorias jurídicas.

  • S3 · E24
    August 17 · 13 min

    #24 | Jean-Christophe, de Romain Rolland

    Em Jean-Christophe (1904–1912), obra que rendeu o Nobel a Romain Rolland, a vida de um músico que transita entre Alemanha e França às vésperas da Primeira Guerra ilumina os direitos do estrangeiro numa Europa devorada pelo nacionalismo. Erik Chiconelli Gomes lê o romance como um estudo sobre o sujeito jurídico transnacional: aquele cujas lealdades culturais atravessam fronteiras, mas que precisa sobreviver em sistemas que presumem cidadanias únicas e exclusivas. A Literatura revela como o nacionalismo se converte em ideologia jurídica, transformando língua, origem e cultura em critérios de inclusão e exclusão. A leitura conecta Rolland aos debates brasileiros sobre direitos dos imigrantes, dupla nacionalidade e proteção de brasileiros no exterior. No encontro entre Direito e Literatura, a obra propõe um cosmopolitismo capaz de acolher identidades múltiplas sem dissolver as diferenças.

  • S3 · E23
    August 10 · 25 min

    #23 | Passagem para a Índia, de E. M. Forster

    Em Passagem para a Índia (1924), E. M. Forster constrói um estudo microscópico da justiça colonial a partir do julgamento do médico indiano Aziz, acusado sem provas de agredir uma inglesa. Erik Chiconelli Gomes mostra como um sistema formalmente impecável — com acusação, defesa e supervisão judicial — pode produzir injustiça sistemática quando opera sobre pressupostos raciais que predeterminam culpa e inocência. A Literatura expõe aqui o que a técnica jurídica esconde: o racismo que decide, antes dos fatos, quem é crível e quem é suspeito. A leitura aproxima a obra de Forster do debate brasileiro sobre seletividade penal, racismo estrutural e as fragilidades do reconhecimento, lembrando que correção procedimental e justiça substantiva nem sempre coincidem. No diálogo entre Direito e Literatura, descobrimos os limites do liberalismo jurídico diante das hierarquias raciais e culturais que ele afirma ignorar.

  • S3 · E22
    August 3 · 22 min

    #22 | Coração das Trevas, de Joseph Conrad

    Em Coração das Trevas (1899), Joseph Conrad transforma a viagem de Marlow pelo rio Congo em uma das mais perturbadoras radiografias do poder colonial. Abrindo o bloco “Império, Violência e Fronteira”, Erik Chiconelli Gomes lê a obra como denúncia das estruturas jurídicas que convertem a exploração em “missão civilizadora” e os crimes contra a humanidade em rotinas administrativas. A Literatura ilumina aqui o que o discurso oficial oculta: o trabalho forçado, o racismo como categoria jurídica e a violência de Estado exercida sem limites nas fronteiras do império. Do Congo de Leopoldo II às continuidades coloniais brasileiras, a leitura conecta a novela ao trabalho análogo ao de escravo ainda tipificado no art. 149 do Código Penal, à seletividade da justiça e à exploração da Amazônia. No encontro entre Direito e Literatura, a obra revela as zonas obscuras do próprio direito moderno, onde a humanidade é seletivamente reconhecida ou negada.

  • S2 · E21
    June 1 · 27 min

    #21 | Fim de Partida, de Samuel Beckett

    Neste episódio especial do Entre Linhas e Leis, Erik Chiconelli Gomes mergulha em Fim de Partida, uma das obras mais contundentes de Samuel Beckett, atualmente em cartaz em montagem dirigida por Rodrigo Portela, com Marco Nanini no papel de Hamm. A partir da peça, o episódio investiga como formas de poder, hierarquias e instituições podem sobreviver mesmo quando os fundamentos que as justificavam parecem ter desaparecido. Dialogando com a leitura crítica de Theodor Adorno, a conversa ultrapassa as interpretações tradicionais do chamado Teatro do Absurdo para revelar uma obra profundamente marcada pelas catástrofes do século XX e pelas crises do mundo contemporâneo. Entre relações de dominação esvaziadas, corpos descartados, exaustão do trabalho, naturalização da violência e fadiga democrática, Beckett oferece um diagnóstico inquietante de sociedades que continuam funcionando mesmo quando perdem de vista seus próprios sentidos. Mais do que uma análise literária, este episódio propõe uma reflexão sobre o Direito, as instituições e as formas de resistência possíveis em tempos de esgotamento. Afinal, quando regras, procedimentos e relações de poder persistem apenas pela força do hábito, o que ainda sustenta a possibilidade de transformação?

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  • S2 · E20
    March 2 · 30 min

    #20 | Ao Farol, de Virginia Woolf

    Na casa de veraneio da família Ramsay nas ilhas Hébridas, Escócia, Woolf explora como temporalidade fragmentada da memória e da experiência subjetiva desafia pressupostos jurídicos sobre linearidade temporal e causalidade. A estrutura tripartite da obra - uma tarde expandida, uma década condensada em poucas páginas, uma manhã que completa jornada iniciada anos antes - revela que tempo psicológico não corresponde a tempo cronológico que organiza processos judiciais. Woolf mostra também como trabalho reprodutivo invisível de mulheres (representado por Mrs. Ramsay) sustenta estruturas sociais que esse trabalho não reconhece juridicamente, antecipando debates contemporâneos sobre economia do cuidado e trabalho não remunerado. Para advogados que trabalham com testemunhos de traumas onde linearidade narrativa é impossível, com questões de prescrição e temporalidade processual, ou com reconhecimento jurídico de formas de trabalho e propriedade que não se encaixam em categorias tradicionais, a obra oferece compreensão sofisticada sobre como categorias jurídicas de tempo, causalidade e propriedade podem ser inadequadas para capturar realidades humanas complexas.

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  • S2 · E19
    February 23 · 26 min

    #19 | O Homem sem Qualidades, de Robert Musil

    Na Viena de 1913, último ano de paz antes do colapso do Império Austro-Húngaro, o matemático Ulrich observa a "Ação Paralela" - comissão imperial criada para organizar celebrações do septuagésimo aniversário do Imperador Francisco José, mas que se torna microcosmo da paralisia burocrática que impedirá o império de responder efetivamente à crise que se aproxima. Musil documenta como hipertrofia normativa, fragmentação de competências, e burocratização extrema podem transformar instituições que deveriam decidir em máquinas de indecisão permanente. A obra oferece análise precoce de como direito pode se tornar autoreferencial, preocupado mais com seus próprios procedimentos do que com problemas sociais que deveria resolver. Para advogados que enfrentam morosidade judicial, fragmentação de competências entre múltiplos tribunais, ou burocratização que impede acesso efetivo à justiça, a parábola do império austro-húngaro oferece espelho perturbador que revela como mesmo sistemas juridicamente sofisticados podem colapsar por incapacidade de responder a desafios que seus próprios procedimentos tornaram invisíveis ou irresolúveis.

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  • S2 · E18
    February 16 · 26 min

    #18 | A Náusea, de Jean-Paul Sartre

    Em Bouville, cidade francesa fictícia às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Antoine Roquentin descobre através de experiência visceral de "náusea" a contingência radical de toda existência - incluindo a contingência das normas sociais e jurídicas que a burguesia local apresenta como necessárias e naturais. Sartre oferece crítica filosófica devastadora da má-fé: a tendência de apresentar escolhas políticas como fatos naturais, decisões históricas como necessidades lógicas, e estruturas de poder como ordens inevitáveis. A galeria de personagens que Roquentin observa - o Autodidata, os "salauds" burgueses, as autoridades locais - representa diferentes formas através das quais elites utilizam linguagem de objetividade e necessidade para ocultar natureza política de suas decisões. Para advogados que trabalham em contextos de crise institucional, lawfare, ou politização explícita da justiça, a análise sartriana oferece instrumentos conceituais para identificar e contestar quando decisões jurídicas que se apresentam como aplicações neutras de normas objetivas são na verdade escolhas políticas disfarçadas de inevitabilidade técnica.

  • S2 · E15
    February 9 · 20 min

    #17 | Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

    Uma única tarde em Londres pós-Primeira Guerra entrelaça as experiências de Clarissa Dalloway, mulher da alta sociedade que organiza uma festa, e Septimus Warren Smith, veterano de guerra que sofre o que hoje chamaríamos de transtorno de estresse pós-traumático e que será levado ao suicídio pela intervenção psiquiátrica do Dr. Bradshaw. Woolf revela como classe social determina completamente acesso à justiça e aos cuidados: Clarissa possui recursos sociais e econômicos para lidar com suas próprias fragilidades psicológicas, enquanto Septimus é tratado como caso médico-legal cuja subjetividade deve ser normalizada ou eliminada. A obra documenta como medicina funciona como extensão do controle jurídico, transformando sofrimento psicológico em questão de ordem pública que autoriza intervenções coercitivas. Para advogados que trabalham com direito de família, saúde mental, ou defesa de pessoas em situação de vulnerabilidade psicológica, a obra oferece análise devastadora de como sistemas jurídicos e médicos podem produzir violências através de procedimentos que se apresentam como terapêuticos ou protetivos.

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  • S2 · E16
    February 2 · 7 min

    #16 | A Consciência de Zeno, de Italo Svevo

    Um empresário italiano em Trieste tenta parar de fumar através de psicanálise, mas sua narrativa revela algo muito mais perturbador: uma consciência que não consegue distinguir responsabilidade real de culpa obsessiva, que reinterpreta constantemente o passado segundo conveniências presentes, e que utiliza justificativas racionais para encobrir motivações inconscientes. Svevo antecipa em décadas o questionamento psicanalítico do direito penal: se grande parte de nosso comportamento é determinada por forças inconscientes que não controlamos, o que significa responsabilidade jurídica? A obra oferece análise pioneira de como neuroses modernas desafiam pressupostos sobre livre-arbítrio e imputabilidade que fundamentam todo o sistema de responsabilização criminal. Para advogados criminalistas, a consciência fragmentada de Zeno oferece modelo para compreender clientes cuja culpa jurídica formal não coincide com sua responsabilidade psicológica real, revelando limitações de sistemas penais baseados em concepções simplistas de consciência e escolha.

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  • January 30 · 4 min

    2ª temporada

    A nova temporada do Entre Linhas e Leis investiga uma questão fundamental para a advocacia contemporânea: como o direito moderno, que proclama racionalidade, universalidade e igualdade, produz sistematicamente resultados que contradizem essas promessas? Através de dez obras-primas da literatura modernista do início do século XX, exploramos as fundações invisíveis sobre as quais se construiu o sistema jurídico que herdamos - fundações que incluem não apenas princípios iluministas de razão e justiça, mas também traumas históricos, violências coloniais, e pressupostos sobre subjetividade que se revelaram muito mais frágeis do que os códigos jurídicos admitem. O percurso se divide em dois movimentos complementares. Na segunda temporada, lançada no primeiro semestre de 2026, acompanhamos a formação e a crise do sujeito jurídico moderno, investigando como categorias fundamentais do direito - responsabilidade, culpa, causalidade, temporalidade processual - repousam sobre concepções de consciência individual que a literatura modernista revela serem profundamente problemáticas. Na terceira temporada, lançada no segundo semestre de 2026, confrontaremos diretamente o direito como tecnologia de dominação forjada na experiência imperial e colonial, cujas estruturas persistem na advocacia brasileira através do racismo estrutural, da violência policial, e da aplicação seletiva de normas que se proclamam universais. Esta não é uma temporada sobre curiosidades culturais ou ornamentos eruditos para conversas de corredor. Cada episódio oferece instrumentos conceituais específicos para advogados que lidam cotidianamente com clientes traumatizados que não narram linearmente seus casos, com réus cuja responsabilidade moral não coincide com culpa jurídica formal, com sistemas processuais que privilegiam sistematicamente determinadas classes e raças, e com instituições que reproduzem violências históricas através de procedimentos formalmente corretos. Para a advocacia comprometida com transformação social genuína, estas obras são ferramentas profissionais indispensáveis, não luxo intelectual. Este primeiro bloco confronta uma ilusão central do direito moderno: a presunção de que existe um sujeito racional, consciente e responsável capaz de compreender normas, controlar suas ações, e ser responsabilizado por suas escolhas. Cinco obras revolucionárias do modernismo europeu revelam que essa concepção de subjetividade é ficção jurídica construída sobre fundamentos psicológicos extremamente instáveis. Exploramos como culpa opera em consciências neuróticas que não distinguem claramente responsabilidade de autopunição obsessiva, como trauma de guerra desestrutura capacidade narrativa que o processo judicial pressupõe, como a contingência fundamental de todas as normas corrói pretensões de objetividade jurídica, como burocratização paralisa instituições que deveriam decidir, e como temporalidade fragmentada da memória desafia pressupostos sobre linearidade processual. Para advogados que trabalham com direito penal, família, ou qualquer área onde psicologia individual encontra categorias jurídicas abstratas, este bloco oferece compreensão sofisticada sobre por que o direito frequentemente fracassa em capturar realidades humanas complexas.

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  • S1 · E15
    Dec 8, 2025 · 14 min

    #15 | A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida

    Almeida explora as limitações do direito formal para reconhecer e reparar traumas históricos intergeracionais, mostrando Severino retornando da guerra colonial mutilado não apenas fisicamente, mas na capacidade de narrar sua experiência, onde plantas "veem" o que ele não consegue expressar em palavras sobre violências que atravessam gerações. A obra revela como colonialismo deixa cicatrizes que persistem em sociedades pós-coloniais através de formas de exclusão que direito tradicional não sabe nomear nem reparar, questionando como desenvolver abordagens jurídicas sensíveis a traumas coletivos que transcendem experiências individuais - uma reflexão essencial para compreender limitações de sistemas de justiça baseados em danos individuais quando confrontados com violências sistemáticas que afetaram comunidades inteiras, especialmente relevante para debates sobre reparações históricas e reconhecimento de direitos de povos historicamente oprimidos.

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  • S1 · E14
    Dec 1, 2025 · 11 min

    #14 | Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo

    Evaristo denuncia a necropolítica racializada do Estado brasileiro através da experiência dilacerante do luto materno, mostrando como violência policial contra jovens negros se naturalizou a ponto de mães negras saberem que podem ter que "ninar seus filhos para a morte" enquanto o sistema de justiça criminal opera seletivamente protegendo vidas brancas. A "canção de ninar" ironiza brutalmente essa normalização da morte negra, revelando como mães negras são sistematicamente privadas do direito ao luto público e à memória digna, expondo que genocídio da juventude negra não é falha do sistema, mas seu funcionamento normal - uma denúncia fundamental para compreender como racismo estrutural permeia todas as instâncias do direito brasileiro, da abordagem policial aos tribunais, perpetuando política de morte que trata determinadas vidas como descartáveis.

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  • S1 · E13
    Nov 24, 2025 · 9 min

    #13 | Nós, de Ievguêni Zamiátin

    Zamiátin antecipa como tecnologia pode criar formas sutis de totalitarismo através da regulamentação total da vida, mostrando D-503 vivendo no Estado Único onde transparência absoluta elimina privacidade e algoritmos matemáticos controlam trabalho, relacionamentos e sexualidade sem violência explícita, apenas através da convicção de que liberdade individual causa sofrimento coletivo. A obra explora como sistemas podem remodelar natureza humana eliminando subjetividade em nome da ordem, antecipando debates contemporâneos sobre privacidade digital e algoritmos de controle social - uma reflexão crucial para compreender como novas tecnologias podem ser instrumentalizadas por Estados e corporações para criar formas aparentemente benevolentes de dominação total, questionando limites éticos da regulamentação e vigilância em sociedades cada vez mais digitalizadas e monitoradas.

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  • S1 · E12
    Nov 17, 2025 · 10 min

    #12 | O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov

    Bulgákov usa a chegada do diabo em Moscou para contornar censura e expor verdades sobre poder soviético que discurso oficial não permitia expressar, mostrando Woland ironicamente exercendo justiça poética ao punir hipócritas e corruptos protegidos pelo sistema, revelando como literatura pode servir como tribunal alternativo quando instituições formais falham. A fantasia se torna mais reveladora que realismo porque cria espaços de verdade que regimes repressivos não conseguem controlar, demonstrando como humor e ironia podem ser ferramentas poderosas de resistência jurídica - uma análise fundamental para compreender como arte e cultura podem denunciar injustiças que sistemas oficiais ocultam, especialmente relevante em contextos onde liberdade de expressão enfrenta ameaças e onde literatura assume papel de preservação da memória e crítica social.

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  • S1 · E11
    Nov 10, 2025 · 12 min

    #11 | Fontamara, de Ignazio Silone

    Silone revela como o fascismo opera através da perversão sistemática de procedimentos legais, mostrando camponeses sendo despojados de terras através de burocracias que mantêm aparência de legalidade - contratos, carimbos e processos formalmente corretos que legitimam injustiças através da complexidade jurídica que comunidades vulneráveis não conseguem compreender nem contestar. A obra expõe como regimes autoritários preferem manipular instituições a destruí-las, usando legalidade formal para dar legitimidade à opressão, antecipando debates contemporâneos sobre lawfare e instrumentalização do direito para fins políticos - uma reflexão crucial para compreender como elites brasileiras usam sofisticação jurídica para oprimir comunidades sem recursos para navegar sistemas legais complexos, transformando tecnicismo em barreira à justiça.

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  • S1 · E10
    Nov 3, 2025 · 10 min

    #10 | Memorial do Convento, de José Saramago

    Saramago transforma a construção do convento de Mafra em metáfora sobre como grandes projetos do poder são sustentados por exploração sistemática de comunidades vulneráveis, mostrando a aliança entre Igreja, Estado e nobreza para usar trabalho popular em nome de ideais superiores que mascararam violência concreta. A obra desmonta retóricas do "bem maior" revelando seu custo humano real, questionando como sociedades avaliam trade-offs entre progresso e justiça social - uma crítica que antecipa dilemas contemporâneos sobre desenvolvimento econômico e direitos humanos, especialmente relevante para compreender como grandes obras de infraestrutura no Brasil operam com desapropriações, remoções e violências contra populações tradicionais, contando com marcos jurídicos que privilegiam interesses econômicos sobre direitos fundamentais das comunidades afetadas.

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  • S1 · E9
    Oct 27, 2025 · 12 min

    #09 | Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

    Rosa explora territórios onde diferentes sistemas normativos colidem, mostrando Riobaldo navegando entre códigos de honra, lealdade e conhecimento da terra em um sertão que não vive em anomia, mas sob regras complexas baseadas em pactos locais e experiências concretas que questionam a universalidade de legalidades impostas de cima para baixo. A constante dúvida sobre existência do diabo espelha incerteza mais profunda sobre bem e mal em espaços onde categorias jurídicas tradicionais perdem sentido, revelando como diferentes comunidades podem desenvolver formas legítimas de regulação social - uma reflexão fundamental para repensar como direito brasileiro pode dialogar com sabedorias tradicionais ao invés de simplesmente substituí-las, reconhecendo pluralidade normativa como riqueza cultural e não como obstáculo à modernização.

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  • S1 · E8
    Oct 20, 2025 · 13 min

    #08 | Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez

    García Márquez usa realismo mágico para revelar absurdos jurídicos reais da história latino-americana, mostrando como o massacre de três mil trabalhadores da banana é imediatamente apagado da memória oficial, demonstrando que poder econômico manipula narrativas legais para proteger interesses privados às custas de vidas humanas. A "solidão" representa isolamento político de povos cujas lutas são sistematicamente excluídas da história oficial, revelando como Estado se alia ao capital estrangeiro usando aparatos jurídicos não para fazer justiça, mas para legitimar injustiças através do esquecimento forçado - uma crítica que ilumina como grandes projetos econômicos no Brasil contemporâneo operam com violência sistemática contra comunidades tradicionais, contando com conivência ou omissão de instituições jurídicas que deveriam proteger direitos fundamentais.

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