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Artwork for Tá lendo o quê?

Tá lendo o quê?

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Aqui, eu falo (em português) dos livros que eu leio. Despretensiosamente. Muito despretensiosamente. Pega leve. Contate-me em marte@autistici.org

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  • Today · 11 min

    Júlia Lopes de Almeida: A falência

    Breves impressões sobre Júlia Lopes de Almeida: A falência (1901), publicado em edição da Editora da Unicamp em 2018. Descrição de imagem da miniatura: pessoa branca, de feições femininas, olhos escuros, cabelo cacheado curto, escuro, solto, usa uma roupa florida, de fundo branco e detalhe azul-escuro. Está no escuro, mas rosto e livro iluminados por uma fonte. Segura um livro de capa branca com uma moldura de espelho dourada estampada. O título, em vermelho: "A falência". Textos citados durante o episódio: Atlas Histórico do Brasil - FGV: Encilhamento, por Gustavo Franco A aventura burguesa: trabalho, casamento e traição em A falência, de Júlia Lopes de Almeida, por Laisa Marra, estágio de pós-doutoramento na Unicamp

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  • August 14 · 7 min

    Audre Lorde: A unicórnia preta

    Breves impressões sobre Audre Lorde: A unicórnia preta, publicado no Brasil pela Editora Relicário em 2020. Tradução do inglês por Stephanie Ribeiro. Descrição de imagem da miniatura: pessoa branca, de feições femininas, olhos escuros, cabelo cacheado curto, escuro, preso, usa uma camiseta verde-musgo discreta. Está no escuro, mas rosto e livro iluminados por uma fonte. Segura um livro de capa amarela e azul chamativos, com a foto de uma mulher preta de turbante na capa, em preto e branco. O título do livro é "A unicórnia preta" e, em letras maiores, está o nome da autora: Audre Lorde.

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  • August 7 · 10 min

    Manuel Puig: O beijo da mulher-aranha

    Breves impressões sobre Manuel Puig: O beijo da mulher-aranha, publicado no Brasil pela Editora Codecri (via Edições Pasquim) em 1981. Tradução do espanhol por Gloria Rodriguez. Descrição de imagem da miniatura: pessoa branca, de feições femininas, olhos escuros, cabelo cacheado curto, escuro, preso, usa uma camiseta azul discreta. Está no escuro, mas rosto e livro iluminados por uma fonte. Segura um livro de capa escura com uma mulher sensual vestindo roupas provocativas, em posição de aranha, chamado "O beijo da mulher aranha" Livros e filme citados no áudio: Don Kulick: Travesti Drauzio Varella: Estação Carandiru Gilda (1946), dir. Charles Vidor Mais informações: Ninguém está nos ouvindo na cela, no texto, na tela (de "O beijo da mulher-aranha"), por Marcos Natali (USP).

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  • July 31 · 8 min

    Don Kulick: Travesti - prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil

    Breves impressões sobre Don Kulick: Travesti - prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil, publicado no Brasil pela Editora Fiocruz em 2009. Tradução do inglês por Cesar Gordon. Descrição de imagem da miniatura: pessoa branca, de feições femininas, olhos escuros, cabelo cacheado curto, escuro e bem volumoso, usa um abafador de ruído sobre as orelhas, cinza, e uma camiseta amarela bem chamativa. Segura um livro de capa preta com elementos bem coloridos, cujo título "Travesti" está em vermelho. Artigos e livros citados no áudio: James Clifford: Sobre a automodelagem etnográfica: Conrad e Malinowski (em: A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX, org. José Reginaldo Santos Gonçalves) Manuel Puig: O beijo da mulher-aranha

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  • July 24 · 7 min

    Mia Couto: O mapeador de ausências

    Breves impressões sobre Mia Couto: O mapeador de ausências, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2021. Descrição de imagem da miniatura: pessoa branca, de feições femininas, olhos escuros, cabelo cacheado curto, escuro e bem volumoso, segura um livro de capa colorida, representando uma mulher sem rosto e pele escura, sentada sob uma árvore com algumas folhas vermelhas, com grande tecido capulana vermelho, estampado, no colo. As cores da capa são bem vívidas. Artigos e livros citados no áudio: Mário Benedetti: Primavera num espelho partido Paulina Chiziane: Niketche: uma história de poligamia Mia Couto: Luto e melancolia em O Mapeador de Ausências, por José Paulo Cruz Pereira Universidade do Algarve (UAlg)

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  • July 17 · 7 min

    Aline Bei: Pequena coreografia do adeus

    Breves impressões sobre Aline Bei: Pequena coreografia do adeus, publicado pela Companhia das Letras, no Brasil, em 2021. Descrição de imagem da miniatura: pessoa branca, de feições femininas, olhos escuros, cabelo cacheado curto, escuro e bem volumoso, segura um livro de capa cinza clara com imagem de cogumelo. O título diz: "The mushroom at the end of the world."

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  • July 15 · 8 min

    Anna Tsing: The Mushroom at the End of the World

    Breves impressões sobre Anna Tsing: The Mushroom at the End of the World, publicado pela Princeton University Press nos EUA, sem tradução para o português brasileiro. Descrição de imagem da miniatura: pessoa branca, de feições femininas, olhos escuros, cabelo cacheado curto, escuro e bem volumoso, segura um livro de capa cinza clara com imagem de cogumelo. O título diz: "The mushroom at the end of the world."

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  • February 15 · 5 min

    As vantagens de ser invisível

    Olá! Meu nome é Marte, e você está ouvindo meu pseudopodcast de leituras recentes. Roteirista de formação, estadunidense, escritor, homem branco de franjinha simpática. Stephen Chbosky é primeiramente um cineasta, mas aventureiro na literatura, e seu primeiro (de dois) livros foi um sucesso entre os adolescentes estadunidenses - e, por que não?, do mundo. Afinal de contas, foi um sucesso para meu eu de treze anos também. Trata-se de As vantagens de ser invisível, livro lançado em 1999 em inglês, nos Estados Unidos, publicado no Brasil em 2007 pela editora Rocco (selo Jovens Leitores), traduzido por Ryta Vinagre, a mesma responsável pela tradução de Crepúsculo no Brasil. Esse livro é frequentemente alvo de contestações de disponibilidade em bibliotecas escolares estadunidenses, afinal, o pessoal desse país é perturbado para banir livros. Isso porque trata de assuntos sensíveis, alguns sem nenhum pudor, tais quais: uso de drogas e linguagem sexual, além de menções a violência sexual. O livro foi escrito em formato epistolar, ou seja, em cartas. Nelas, o garoto Charlie, de 15 anos, relata coisas extremamente particulares de sua vida para um destinatário que não é revelado - assim, o próprio leitor se sente o destinatário delas. Charlie é um garoto muito introvertido, desajeitado socialmente, tem dificuldade de entender concretamente o que o cerca e está profundamente chateado com a morte do melhor e único amigo, Michael, o qual se suicidou. Por isso, ele toma a iniciativa de se corresponder unilateralmente com o destinatário-leitor. Conforme as cartas vão avançando no tempo, temos um panorama cada vez mais íntimo da vida do menino, incluindo certo desabrochar de amizades com duas figuras centrais para a obra: Patrick, um adolescente gay, e sua irmã postiça Sam, interesse amoroso de Charlie. A escolha de tornar o livro um romance epistolar foi muito acertada; Chbosky consegue uma proximidade íntima com o público adolescente, parte do motivo do sucesso da obra. Outra parte que, na minha opinião, ajuda a explicar esse sucesso de público, é a honestidade com que o autor trata desses temas sensíveis, sem julgamento ou moralismo. Charlie usa abertamente cigarro, maconha e LSD, inclusive sofrendo reveses mentais por suas condições anteriores, mas isso é tratado de forma não didática, mais descritiva e compreensiva. Dito isso, é necessário ler o livro ciente de que se trata de uma leitura de entrada - uma boa leitura de entrada, mas ainda assim destinada ao público juvenil. O título em inglês é "The perks of being a wallflower", sendo wallflower um termo em inglês para aquela pessoa que vê tudo e não interage nem interfere em nada. O título vem de um comentário do personagem Patrick em relação a Charlie, que o descreve como esse adjetivo. Sam, em certo momento, critica Charlie justamente por ser um extremo passivo em relação aos acontecimentos de sua própria vida. A tradução de "wallflower" para "invisível" suscita polêmica desde 2007. Não sei opinar, nem tenho gabarito algum para opinar sobre tradução profissional. Só sei que "As vantagens de ser passivo" seria um título certamente engraçado. Charlie, além de passivo, é um adolescente claramente deprimido, ansioso e em certos momentos, até alucinado. Sem querer dar detalhes sobre o desfecho, mas envolve a descoberta de um trauma. Nesse sentido, fica a dúvida se o autor quis equacionar trauma com passividade e depressão, conforme algumas interpretações que li sobre o livro. Na minha opinião, não é bem isso. Não fica claro no livro se o trauma torna o menino assim, ou se ele já era assim, isso inclusive teria incentivado o trauma, e depois o piorado. Essa segunda possível interpretação tem origem num diálogo de Charlie com a irmã dele, após ele revelar um segredo dela porque ela pediu para não contar aos seus pais (mas não havia mencionado citar para o professor Bill, que depois repassou aos pais do mesmo jeito. Logo, uma interpretação bastante literal): "Você é um anormal, sabia? Sempre foi anormal. Todo mundo diz isso. Sempre disseram." "Estou tentando não ser assim." Relendo em 2026, tive a impressão de uma descrição de Charlie com leves traços autísticos. Não é meu trabalho nem minha ética tentar atribuir diagnósticos psiquiátricos a personagens, mas muitas das atitudes e confusões do protagonista no livro me lembram minhas próprias dificuldades com o mundo não-autista ainda hoje, aos 27 anos. Entender Charlie como um possível garoto autista dá outros contornos à história e afasta a leitura do trauma como uma condição obrigatória para ser esquisito, ou vice-versa. Parte de mim gosta dessa interpretação porque, enquanto uma adolescente autista, as cartas de Charlie/Chbosky influenciaram muito meu próprio estilo de escrita altamente introspectivo e um gosto pela escrita epistolar. Uma crítica contundente que deixo ao livro é o final que não amarra as consequências do trauma citado, de forma rápida e inconsequente. Não é que eu desejasse um final didático ou coisa do tipo, mas uma amarração adequada, não apressada, para um assunto sensível, é sempre apreciada. Parece que a informação é jogada e de repente a história se encerra nas três páginas seguintes. Não gosto disso. Enfim, recomendo a leitura mesmo para o público adulto. Considero um livro adolescente honesto e bem escrito. Também costuma ser popular o filme lançado em 2012, que foi dirigido pelo próprio Chbosky, o qual descobri ser cineasta e roteirista apenas escrevendo/gravando essa resenha! Um abraço!

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  • January 25 · 10 min

    Sobre os ossos dos mortos

    Sobre os ossos dos mortos foi publicado originalmente em polonês, no ano de 2009, publicado no Brasil pela Todavia em 2019, traduzido por Olga Baginska-Shinzato. A tradutora Olga, no caso, é professora de literatura brasileira e língua portuguesa brasileira na Universidade de Varsóvia, na Polônia. Eu queria agradecer à ouvinte e amiga Renata pela gentileza de me lembrar de citar o trabalho imprescindível das pessoas tradutoras na literatura. Ela que também é tradutora e é uma pessoa incrível! A editora Todavia já estava no processo de trazer Tokarczuk para o Brasil quando foi anunciado seu Prêmio Nobel, o que certamente contribuiu para o marketing da publicação. Sobre os ossos... é um livro que fala sobre as pontes entre os mundos humano e não-humano, algo reforçado numa metáfora um pouco cansada duma protagonista engenheira construtora de pontes. Ou pelo menos o era, num passado meio distante. Ah, e tem uma parte da solução de uma série de crimes. No tempo em que ocorre a história, a sra. Dusheiko é uma mulher idosa, aposentada, moradora de um vilarejo relativamente ermo do lado polonês na fronteira com a República Tcheca. Ela toca a vida cuidando das casas da vizinhança nos tempos de inverno castigante, admirando a natureza, especialmente os animais, dando aulas de inglês para crianças, e refletindo sobre sua própria solidão. Na minha visão, Dusheiko é uma pessoa altamente introspectiva, aparentemente misantropa, mas bastante afetuosa e também instável, tendo problemas com seu próprio envelhecimento. Ela é, também, a narradora em primeira pessoa. O livro abre justamente com a senhora relatando a descoberta da morte de seu vizinho, que ela chama de Pé Grande. Depois desse acontecimento, uma série de assassinatos relacionados é propagada. Esses crimes têm como vítimas os caçadores de um grupo famoso na região por matar corças, animais especialmente queridos pela protagonista. Quando vi as contribuições de outras pessoas sobre esse livro, percebi que o romance era largamente tido como policial. Só que não enxerguei o romance como policialesco e me surpreende que tenha sido vendido por tal, tamanha a introspecção da narradora. Para mim, o carro-chefe do livro é justamente esse fluxo introspectivo. A autora nos apresenta uma narradora que tem um intenso fluxo de consciência, conectando partes entre si e o mundo que a cerca, de forma ao mesmo tempo deprimida e apaixonada. Em muitos momentos, é como se eu estivesse lendo um dos meus próprios fluxos de consciência cotidianos. Ao contrário de muitos relatos de leitores, eu criei uma grande empatia com a narradora, já que me identifiquei com ela nesse fluxo e com sua troca espiritual por meio dos sonhos com o mundo dos mortos. Já as partes policialescas, relacionadas aos assassinatos, chegam até a ser um pouco chatas. Cheguei a enxergá-las como um anexo ao meu interesse, que era a vida e a história da senhora, quando na verdade deveriam ter sido o carro-chefe! Há certa estranheza, na minha percepção, na articulação dos elementos policialesco/mistério e introspectivo/mágico, não sei se a autora conseguiu transicionar entre os dois elementos bem durante a história. Frequentemente, o livro é descrito como mistura entre terror, suspense e humor. Eu não achei aterrorizante, eu não achei engraçado tampouco. De fato, há suspense. Li algumas resenhas sobre o ar depressivo, mas ácido e humorado, da sra. Dusheiko, e só pude notar que algumas das ironias podem ter passado direto por mim como respostas óbvias. Talvez porque eu seja essa pessoa, ironizo com algo que realmente me dói, uso do humor para tentar expressar aos "normais" algo dito com honestidade. Mesmo assim, tive certa dificuldade em perceber o humor como proposital. Apesar de eu entender a escrita em fluxo de consciência, altamente introspectiva, como minha parte preferida do livro, houve alguns desconfortos narrativos que não posso deixar passar. Flagrei mais de um clichê relativamente embaraçoso (por exemplo, quando descreveu um episódio das suas "moléstias", a narradora entrega: "a dor se concentrava apenas na perna esquerda, feito uma corrente elétrica"). Também há mais de uma redundância, as quais considero irritantes a não ser em contextos propositais, e aqui não o foi (por exemplo, três vezes apareceu um "saí para fora"). Outro recurso enfadonho são algumas frases redondas demais, mas o livro ganha um desconto por ser lançado antes do TikTok. Por exemplo: "às vezes eu acho que apenas os doentes são de fato sãos". No começo, na minha opinião, impactaram a qualidade da narrativa ao ponto de eu temer detestar o livro. Depois, a escrita se desenrola melhor. Comecei a me ambientar melhor com o fluxo e houve um crescimento da obra ao ponto de eu julgar que esses deslizes não estraguem a experiência. Mesmo assim, há certa literalidade no desenvolvimento dos fatos, o que afasta o livro de seu potencial máximo. Talvez eu esperasse um pouco mais da obra de uma prêmio Nobel de literatura, admito. Comentando algumas passagens importantes do livro... Chama atenção a escolha da personagem acerca da nomeação de terceiros. Ela não gosta de seu próprio nome, que é Janina, e uma das passagens mais interessantes do livro trata-se justamente da sua recusa em entender os nomes de cartório como algo dado eterno. Alguns alegam que os apelidos dados por ela são sempre depreciativos, mas não concordo completamente. Mesmo os aparentemente depreciativos podem se tornar afetivos ao longo da história, tal qual o de Esquisito. Infelizmente, esse poder da nomeação é simplesmente mal colocado na história e não tem um porquê explicado ou participa duma trama maior. Outros personagens que recebem apelidos particulares são Boas Vindas e Pé Grande. Existem razões para a nomeação, inclusive explicadas explicitamente, mas falta o contexto maior. Na minha opinião, isso foi frustrante, porque guardava uma das particularidades mais interessantes da sra. Dusheiko. A astrologia, talvez reflexo da formação junguiana de Tokarczuk, é importante elemento da obra. Não importa se você concorda com a validade da astrologia ou não, aqui cabe pensar sua função no contexto. Se entendi bem, a astrologia estabelece certo determinismo: a narradora usa como uma forma de se conformar e acalmar perante as incertezas do seu próprio envelhecimento, além de justificar as ações de todas as personagens, inclusive ela mesma. Ainda que um pensamento secundário, surgiu a reflexão sobre o amparo determinista que certos sistemas de crença entregam às pessoas, e aqui a astrologia tem justamente esse papel. Ela serve como propósito na vida de Dusheiko como se suas escolhas tivessem sido escritas nas estrelas na hora e lugar de seu nascimento, portanto, ela não poderia ser responsabilizada por nada. Numa passagem específica do livro, a sra. Dusheiko envia cartas à polícia descrevendo casos jurídicos envolvendo os animais. Foi impossível não lembrar de Vinciane Despret: O que diriam os animais?, da editora Ubu, um livro interessantíssimo que desperta reflexões filosóficas acerca do ser humano e não-humano. O livro de Despret pode ser de não-ficção, mas Tokarczuk traz para Sobre os ossos... muitos dos elementos de O que diriam os animais? (ainda que não sejam necessariamente correlacionados). Ainda sobre os animais, fica clara a relação íntima e espiritual que a protagonista nutre com os animais que a cercam. Parte dessa comunhão é expressa por seu vegetarianismo, reforçado em algumas passagens. Entretanto, o vegetarianismo como lição moral é esquisito. Mal colocado. Você não entende o porquê irrecusável desse elemento estar presente na história, a razão de ser das motivações da senhora, justamente porque falta contexto sobre essa relação íntima com os animais. É quase como se o vegetarianismo fosse uma conclusão óbvia de sua relação com os animais A sra. Dusheiko se importa muito com os animais, tá bom, mas porquê? Foi antes ou depois de um certo acontecimento traumático descrito na história? Sua noção de justiça é ecofascista ou não? Me parece que não, mas ainda assim a construção é fraca para confirmar. Em alguns momentos, sinto que a relação da senhora com os animais poderia ser ancorada numa materialidade maior dos elementos da história. Em certos pontos, parece até que a autora, ela própria vegetariana, tenta nos passar uma lição de moral constrangedora. Todo livro tem seu ponto de vista e passa ideais adiante, mesmo que esse ideal seja a falta de ideais. Só que apelar para trechos didáticos é uma escolha irritante. Outro ponto que não fez o menor sentido para mim durante a leitura: a fixação com um escritor chamado William Blake, que é ponto importante da narrativa, mas não há uma motivação explícita da razão para isso. Ouvindo e lendo resenhas posteriormente, entendi que Blake tratava de assuntos relativos à natureza em parte das suas obras. Mesmo assim, aqui ficou meio sem nexo. Trata-se de mais um dos elementos salpicados na história para orientar o leitor numa direção de "veja só, a natureza é daora". Não consigo julgar de fato sem ter lido Blake, mas fiquei com estranhamento. Para finalizar, talvez vocês estejam confusos por eu criticar tantas partes desse livro e ainda assim dizer ter gostado dele. Eu esperava um pouco mais, não vou negar, mas o fluxo introspectivo gerou uma empatia gigantesca minha com a personagem e eu consegui me ver imersa em seu mundo. Consegui até me ver nela quando eu envelhecer, tirando talvez a parte do inverno na Polônia. Serei provavelmente uma velha considerada louca por defender minha concepção de mundo, ou, citando o termo dessa semana, cosmovisão. Recomendo a leitura, mas com menos sede ao pote do que fui inicialmente. É isso, obrigada!

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  • January 20 · 12 min

    Xinran: As boas mulheres da China

    Resenha do livro As Boas Mulheres da China, de Xinran, publicado pela Companhia das Letras no Brasil. Link para a dissertação de Isabela Maia Costa (UFRN) Transcrição do áudio: Por que os homens odeiam tantos as mulheres? Foi a pergunta que fiz repetidas vezes a eu mesma enquanto lia As Boas Mulheres da China. As Boas Mulheres da China é um livro escrito pela escritora sino-britânica Xinran. Lançado em 2002 no Reino Unido, foi publicado aqui no Brasil pela Companhia das Letras em 2003. Inclusive, a versão que eu li é a de 2003, mas eu sei que exite uma edição da Companhia de Bolso mais recente. A Xinran é uma jornalista e professora universitária de 68 anos, nascida na China (cidade de Pequim). Resolveu emigrar por sentir seu trabalho enquanto jornalista sendo sufocado e até censurado no país de origem. Trabalhava numa rádio local, tinha um programa noturno muito importante, o qual apresentava grande público feminino. É importante notar que, assim como outras rádios, ela era de contexto estatal, controlada pelo Partido Comunista Chinês, com linha editorial bastante estrita. Após receber alguns contatos por carta, Xinran decidiu tratar de questões de feminilidade e da experiência de ser mulher na China, aproximando-se de seu público. Assim ela passou a se envolver mais de perto com as vidas privadas das mulheres chinesas, a autora começou a perceber que a rádio estatal na qual trabalhava era incapaz de oferecer a liberdade necessária para tratar desses assuntos, segundo ela. Para ela, esse livro seria censurado por seus superiores e pelo Partido Comunista Chinês, se tentasse lançá-lo na China. Considerando o livro a obra de uma vida, ela decide emigrar. Quando ela emigra da China, não leva anotações específicas consigo, e resolve recontar esses relatos mediados por sua memória, conforme ela própria relata. Todas elas são estórias devastadoras, revelando uma fragilidade gigantesca nas relações entre homens e mulheres, e até entre mulheres, geracionalmente falando. Por exemplo, uma das primeiras histórias relatadas é a de uma adolescente resgatada de um casamento com um homem muito mais velho no interior da China. Esse é, temporalmente, um dos primeiros casos acompanhados por perto pela escritora nesse processo de entender a realidade das mulheres chinesas (será que é realmente possível?) Outra história, mais para frente, relata o casamento forçado de uma militante do Partido Comunista de criação ocidental com um figurão do partido, sua missão, determinada pelo próprio partido, sendo transformar-se numa esposa. A primeira impressão, óbvio, é o horror da misoginia. A pergunta mais cara eu já fiz no começo: por que homens odeiam tanto mulheres? Nas histórias atravessadas entre realidades sociais diferentes, a misoginia repete-se incessantemente. Muitas vezes, precisei parar e sentir o desespero a me tomar ao final de cada capítulo. Mesmo assim, entendo que o livro fala por si só nesse quesito. Não entrarei em muitos detalhes sobre os textos específicos do livro, e suas temáticas e histórias e roteiros, porque acredito que valha uma leitura. Talvez interesse trazer outros aspectos da obra. Um aspecto interessante desse livro trata-se de entender qual seria a visão de mulher construída pela autora. Percebe-se ao longo do livro que a escrita de Xinran é marcada por tradicionalismos da visão do ser mulher. Em certos momentos, principalmente naqueles em que ela entrevista mulheres mais jovens com estudo universitário, há grandes embates geracionais. Entretanto, ela é relativamente comprometida em subverter essa violência com a qual as mulheres são tratadas, não posso negar, independentemente de qual seja seu contexto político. Isabela Maia Costa, pesquisadora com a qual cruzei com seu trabalho na confecção desse pseudopodcast, é mestre em Estudos Literários pela UFRN, e explora em sua dissertação sobre As Boas Mulheres da China um pouco sobre a cultura do país e sua alta influência pelas contribuições de Confúcio e seus posteriores seguidores. O Confúcio, no caso, foi um filósofo muito importante na China. Eu não entendo nada dele, para ser sincera, portanto vou deixar a dissertação da Isabela falar por si própria. De qualquer forma, o ser uma mulher virtuosa é central no ideário popular chinês. Xinran não é afastada disso. É importante ressaltar que a autora é alimentada por suas próprias experiências como mãe solteira no período de "reabertura" da China, o período pós-Mao, em que Deng Xiaoping assume o poder e promove, por meio do Partido Comunista, uma série de reformas econômicas na China, que levam o país a rumos muito diferentes da Revolução Cultural, acontecida de meados de 1960 a meados de 1970. O país passou por um momento histórico muito conturbado no século passado. Em 1949, aconteceu a revolução comunista, na qual o Partido Comunista Chinês tomou o poder da China continental, e o partido anterior foi encurralado em direção a Taiwan, onde continua até hoje. Há alguns altos e baixos nessa experiência, o que escapa ao escopo deste texto. Trata-se, estilisticamente, dum livro apresentando mistura de autobiografia, com relato jornalístico, com ensaio. Isabela Costa nomeia essa mistura de narrativa híbrida, não sendo possível classificá-la em apenas um gênero literário. A escolha pela autobiografia como fio narrativo relaciona-se com o público inicial do livro, centralizado no Ocidente. Inclusive, a primeira língua de publicação dele foi justamente o inglês, apesar do livro ter sido escrito inicialmente em chinês, e ter havido um pouco de dificuldade na tradução exatamente do jeito que a autora gostaria. A autobiografia ser escolhida faz o leitor ficar muito em dúvida em relação a quais seriam os limites entre ficção e realidade. A gente é induzido a tomar as histórias como realidade, porque aqui entra o tom profissional jornalístico. Mas é fato: as histórias provavelmente foram alteradas pela própria memória da autora, seja esse um passo mal intencionado ou não. Os riscos estão na autopercepção da autora sobre suas próprias memórias e suas interpretações dos fatos. Aliás, quem é o centro dessa narrativa? São as mulheres que têm suas histórias narradas, ou seria Xinran? Xinran foi de uma família relativamente abastada. Apesar dos pais dela terem dedicado a sua vida à Revolução Comunista desde o começo, eles também foram parte dos alvos da Revolução Cultural por serem de família pequeno-burguesa. Ela também foi muito humilhada nos contextos em que ela viveu, escola e abrigo, por ser uma pessoa do grupo execrado, e tem muita bronca da Revolução Cultural por causa disso. Não me sinto à vontade de julgar as percepções dela em relação a isso, mas é um fator que o leitor precisa tomar cuidado, porque com certeza essa percepção impacta o julgamento que ela própria faz das situações que as outras mulheres viveram e relataram a ela. Será que a percepção que as mulheres tinham ali era da Revolução Cultural e da China comunista como um todo coincidia com a opinião e a história de Xinran? Ou, mais ainda, a percepção das mulheres sobre a misoginia que sofriam era restrita ao tempo do comunismo, ou era da história da China como um todo? Quando a autora se propõe a colocar uma narrativa autobiográfica, fica a impressão de que ela desloca as histórias da mulher para ela própria, como se fosse uma porta-voz das histórias das mulheres para o Ocidente ver o quanto a China era ruim. Isso é uma coisa que incomoda no livro. Dizer que após sua mudança para Inglaterra, ela estaria livre, numa imprensa livre, que ela poderia realmente contar as histórias, ao contrário da China, uma prisão. Não concordo com essas leituras dicotômicas. Na minha percepção, a mídia na Inglaterra pode ser tão castrada quanto a mídia na China. É claro que em percepções diferentes. Conheço a misoginia e também certos círculos maoístas de perto. Frequentemente, uma marca presente nessas pessoas era as visões muito masculinizantes da existência. Portanto, acredito, sim, no cerne e na veracidade de boa parte das narrativas. Entretanto, não permitindo espaço ao contraditório e à nuance, na tentativa de trazer essas vozes ocultas, talvez ela oculte as vozes das mulheres que jurou amplificar! Também está presente na dissertação da Isabela uma crítica a essas percepções dicotômicas, preto no branco, da Revolução Cultural. Todos os processos históricos eles contam com contradições extremamente importantes, e a gente precisa lidar com essas contradições para fazer uma análise histórica correta. É um fato que durante o período da Revolução Cultural houve certa reabilitação do papel da mulher. A questão é que muitas vezes a reabilitação era mais no sentido de eliminar o gênero da mulher do que de fato torná-la igual ao homem. Mas aí essa discussão não se encaixa nessa resenha. Se apresentar essa obra para pessoas comunistas, elas provavelmente darão risada e apontarão ser propaganda anti-comunista. E é um pouco sim, não nego. Mas, ao mesmo tempo, entendo que ele tem seu valor para os processos de autocrítica do processo revolucionário. As mulheres têm que buscar essa voz para trazer cada vez mais as suas mágoas intergeracionais e de gênero. Porque eu acredito que a situação da mulher na China é depreciada, mas isso acontece em vários lugares do mundo, não apenas naquele país. E, sinceramente, a maior decepção é quando a gente confia no processo comunista para conseguir tornar as coisas mais justas e ele acaba violentando as mulheres do mesmo jeito. Eu acho que é isso que ficou para mim do livro.

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