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Logon Podcast

Rosacruz Áurea

Logon é a revista online da Escola da Rosacruz Áurea. LOGON explora uma nova perspectiva do desenvolvimento do ser humano e das mudanças na sociedade do século 21, que emergem na arte, na ciência e na religião. Visite nosso site: www.logon.media/pt-br

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  • 20 episodes
  • weekly
  • Avg 6 min
  • Portuguese
  • Wednesday · 5 min

    #234 A natureza da realidade

    A NATUREZA DA REALIDADE A natureza da realidade Deixe de lado a busca por Deus, pela criação e por coisas semelhantes. Busque-O a partir de si mesmo. E descubra quem é aquele que, em si mesmo, faz todas as coisas suas e diz: “Meu Deus, minha mente, meu pensamento, minha alma, meu corpo”. Compreenda de onde vêm a tristeza, a alegria, o amor e o ódio; a vigília e o sono involuntários, a ira e a afeição involuntárias. E, se examinar cuidadosamente essas coisas, encontrará o próprio Deus em si mesmo, na unidade e na multiplicidade. Monoimo (gnóstico árabe) Esta citação nos desperta para o verdadeiro autoconhecimento, que é nossa única realidade… Não para buscar um auxílio mágico externo, mas para encontrá-lo em nós mesmos. Possuir o conhecimento não nos dá a sua experiência, que acontece somente no presente... Estou aqui, neste momento, e é somente nele que algo novo pode acontecer... Aprender o suficiente com as lições do passado e viver no presente, sobre esta base, criará um futuro pleno de vida. Minha alma somente pode ser verdadeiramente nutrida, fortificada, purificada e enriquecida pela plenitude do instante. Se eu me contento em ser fiel a esta Luz, minha alma saberá muito bem como se regenerar; o desafio é observar nossos pensamentos para deixá-los desaparecer, em vez de vagar com eles em múltiplas criações inúteis. Energeticamente, criamos nossa realidade a cada instante da nossa vida. É o que torna cada segundo tão precioso: exatamente como uma dádiva. O presente é uma janela que se abre para a verdadeira vida. No entanto, com muita frequência, não sentimos o desejo de permanecer no presente, pois não o consideramos suficientemente interessante para merecer toda a nossa atenção. Temos tantas outras coisas a fazer... Se não nos abrirmos para o que o presente tem a oferecer, deixamos de receber as suas dádivas no mesmo instante. A Realidade interna anuncia, antecipa a Realidade externa e varia conforme a observamos ou não. Ela está em constante mudança, conforme nossa percepção. Nossa consciência cria a nossa realidade, e não podemos manifestar nada que já não tenha sido inteiramente formado dentro de nós. A cada instante, nos encontramos em um ponto do tempo em que o passado e o futuro se separam. Quando não é o passado que nos atrai para si, é o futuro que nos preocupa. Esse passado é quase desconhecido, e o futuro, uma projeção, uma expectativa. Cabe a nós a difícil tarefa de nos equilibrarmos entre os dois e permanecermos centrados. E isso nos torna silenciosos… Nesse silêncio, o tempo não existe. Em um momento da minha vida, parti em busca de Deus, do Conhecimento, do amor, enfim, de um ideal… Eu me projetei para fora, enquanto dentro de mim vivem a Realidade, a Verdade, o Amor. Preciso apenas escutar, observar o que É, sem julgamento, somente ver o que é para conhecê-lo. Permanecer com o que é me transforma, me torna silencioso e, nesse silêncio, a Realidade age... Tudo o mais que eu fizer a afastará, como o vento dissipa as nuvens. Se estou atento a tudo o que pode drenar minha energia; se zelo pela minha integridade; se os meus mecanismos mentais se dissolvem; se não desejo mais me tornar alguém ou algo e, assim, deixo de elaborar grandes planos para meu futuro, já que o instante, tão rico, me indica o caminho a seguir dia após dia, instante após instante; se ajo por necessidade; se permaneço em minha natureza verdadeira e simples… isso atrai naturalmente o Amor, que se manifesta pela sua irradiação, sua vibração, sua energia… Então, faço o que é certo. Assim, compreendo que, sem esse novo estado de ser, nada posso! Só me resta acolher essa vibração como meu único tesouro, a fim de viver nela, com ela e por meio dela. Dessa maneira, eu me dirijo rumo à Única Verdade por um caminho que toma forma passo a passo, no presente… cada passo surgindo de um conhecimento interior do caminho a ser percorrido. Esse caminho é para mim real, mas invisível… Imagem: Ghislaine Bousquet-Egli

  • September 30 · 7 min

    #233 Pedra sobre pedra

    PEDRA SOBRE PEDRA A realidade de um símbolo Elas não conseguiam se lembrar de quando haviam chegado ali, nem exatamente como. Sabiam apenas que, em algum lugar distante de onde estavam agora, tinham sido uma só. Lembravam-se de quando um homem trabalhou suas formas e as dispôs de um jeito planejado sobre cascalhos, ressaltando formas arredondadas e sua tonalidade esverdeada. Mais do que nunca, tinham uma certeza: pertenciam uma à outra. O tempo não significava muito para elas. Tinham séculos de existência. Mas, desde que haviam recebido aquela forma e sido colocadas naquele lugar, passaram a compreender um pouco melhor o que as pessoas queriam dizer quando falavam em “tempo”, pois agora tinham antes e depois. No entanto, uma delas não parecia estar muito satisfeita ultimamente. Andava mal-humorada, impaciente. A outra começava a se incomodar com os suspiros exasperados e os silêncios carregados. — O que há com você? Não entendo o que está acontecendo. Já lhe perguntei isso inúmeras vezes e nós nos conhecemos bem o suficiente para que você me explique. Depois de um momento de silêncio, veio a resposta: — Estou começando a me cansar de ficar aqui com você, nessa mesma posição. — O quê? Você se apoia em mim, eu sustento você! E estamos tão bem e tão protegidas... somos aquecidas quando há sol e somos lavadas pela chuva. Além disso, temos uma bela vista da baía entre as árvores. Podemos até ouvir o barulho do mar... — Sim, eu sei que você vê as coisas de outra maneira. Mas qual é o sentido de estarmos aqui? Além do mais, sinto saudade de como éramos antes de recebermos essa forma. A outra ficou em silêncio. Ela também sentia saudade e já ouvira visitantes falarem sobre isso. Por outro lado, também percebia uma sensação de algo mais, algo essencial nessa forma atual. A outra pedra não escondia sua insatisfação e continuou seu desabafo: — Inclusive, estou começando a não gostar do que as pessoas dizem sobre nós... Sobre por que temos justamente essa forma e o que ela significa. Concluem coisas tão banais... — Sim, nesse ponto eu concordo. De vez em quando é assim. Mas, fora isso, não é tão ruim… Você observa que a maioria presta muita atenção em nós e, quase sempre, começam a conversar sobre coisas que vão muito além da nossa forma e do lugar em que estamos? Frequentemente até fazem comparações com a vida delas! A outra ficou em silêncio. Um longo silêncio. Depois, falou em tom muito baixo. Era quase um sussurro: — Mas nada acontece. Pelo menos eu não percebo nenhum desenvolvimento nelas, nenhuma ação. E essas pessoas que nos visitam aqui precisam seguir em frente, não precisam? — Bem, se você quer saber o que penso... Deve ter um motivo para nós e para elas estarmos aqui agora. Também acho que muita coisa continua acontecendo na mente destas pessoas, levam suas reflexões, mesmo muito tempo depois de irem embora. Em seus pensamentos e sonhos, acho que se perguntam sobre o por quê[1] da própria forma, da própria função... talvez de seus propósitos. — Mas o que elas ganham com isso? Isso as leva a algum lugar? — Não sabemos. Mas estamos fazendo a nossa parte. Algo me diz que estamos aqui, dessa forma, porque o artista que nos criou quis expressar alguma coisa importante. E talvez isso chegue às pessoas de uma maneira muito diferente do que podemos imaginar. Perto da escultura de granito, havia um casal que tinha atravessado um período longo e difícil devido à perda de pessoas queridas. As marcas do sofrimento podiam ser percebidas por sua maneira de caminhar e pelas linhas profundas nos seus rostos. A mulher girava vagarosamente ao redor do conjunto de esculturas quando o homem lhe perguntou: — Você acha essas pedras especiais? — Sim. Expressam alguma coisa que não consigo nomear, mas que me atrai. Ele a [2] questinou-a, quis entender melhor, e mesmo sem ter as respostas, a mulher tentou explicar-se. Disse que a escultura de pedras sobre pedras a tocava em algum lugar profundo, e isso a intrigava… vinha da forma arredondada e da maneira como as pedras se apoiavam umas às outras... Havia algo ali que parecia querer se expandir, irradiar… e havia uma parte que acolhia e sustentava. Ela tirou outra fotografia da escultura. A enésima. O homem respondeu: — Isso está lhe fazendo bem. É a primeira vez em muito tempo que vejo você sorrir. — Sim, é verdade, isso me alegra. Mas por quê? - perguntou a si mesma. Ela parou para refletir. Seu olhar perdeu-se na escultura por longos minutos. Em dado momento, sorriu abertamente, aliviada, feliz. — Meu querido, já podemos continuar nossa caminhada pelo parque. Ela tinha decifrado o enigma, e a solução era o alento de que ela precisava: a escultura no parque a fazia sentir a interdependência de tudo. Interdependência era apoio e o contrário também, sem qualquer espaço vazio. Foto: Winnie Geurtsen / Peter Randall

  • September 19 · 7 min

    #232 Solidão - um relato pessoal

    SOLIDÃO – UM RELATO PESSOAL Uma viagem exterior pode ser uma jornada interior Sentir-se ou estar sozinho é desagradável para muitas pessoas, mas não para mim. Sinto-me confortável sozinho. Não estar com pessoas pode parecer antinatural, mas eu me senti realmente confortável durante o período da pandemia. Isso é estranho? Deve haver algo de errado comigo.Minha esposa diz que tenho medo de me relacionar e de me abrir. A questão de me sentir mais confortável sozinho do que com pessoas pode ser porque fui muito magoado na minha juventude e também na fase adulta. Eu era daquele tipo de pessoa que está sempre à margem, fazia parte do grupo dos perdedores, dos que não valem nada — pelo menos na opinião dos outros. Então, isolei-me e tentei a minha sorte na solidão. Sem contato, não há risco de me magoar. O cervo ferido foge para a floresta densa para morrer. Durante quase 20 anos, às vezes no verão e outras vezes no inverno, eu fazia caminhadas na Lapônia, em meio à natureza selvagem, sem trilhas, por pântanos e florestas densas, sem cabanas. Telefones celulares não funcionam lá. Para deixar minha esposa mais tranquila, eu carregava um transmissor de chamada de emergência. Em nenhum momento me senti sozinho ali. Tinha uma sensação de bem-estar, de estar em casa. Eu não era um estranho naquele ambiente. Não havia ninguém em um raio de 10 quilômetros. Se eu caísse em um riacho e batesse a cabeça numa pedra, morreria. Um dia encontrei uma ursa com seu filhote a uns 15 metros de distância. Mesmo assim, me senti em casa. Raramente tive medo. Os esotéricos diriam: “em outra encarnação você viveu e foi feliz lá, e por isso se lembra disso agora”. Honestamente, acho irrelevante entender o porquê. Estou apenas aqui, vivendo o presente. O que conta é o agora, e é assim que as coisas são. Sei que tudo o que precisa ser resolvido sempre me será mostrado enquanto for necessário. A região da Lapônia onde eu fiquei é pobre em estímulos físicos, mesmo no verão, quando o que vemos são lagos, pântanos, mosquitos, árvores, pedras, colinas, montanhas e campos de neve. Já no inverno, há neve por toda parte. No primeiro dia, internamente eu ainda não tinha chegado; no segundo, percebi que estava na Lapônia; no terceiro dia, tudo se tornou monótono e, no quarto dia, surgiram pensamentos e sentimentos que antes não tinham lugar. Percebi minha dor, meu sofrimento. Caminhei pela floresta chorando.Isso se repetiu no quinto dia. No sexto, tudo o que precisava sair, saiu. Então, fiquei calmo, relaxado e desapegado. Foi uma verdadeira catarse. Durante minhas caminhadas, a experiência foi se intensificando. Tudo era branco. Havia neve, vento, frio e uma neblina tão densa que eu só tinha visibilidade de um metro. O silêncio era absoluto, dia e noite.Só o estalar do gelo nos lagos e rios congelados quebrava o silêncio. O ar era frio e puro. Tudo era menos estimulante. Devido às longas noites, a jornada interior aprofundava-se. A temperatura chegou a menos 35°C na barraca. Noites antes, o céu estivera absolutamente deslumbrante, repleto de auroras boreais. O céu se ilumina na escuridão, assim como a consciência obscurecida pode se tornar luminosa. A luz brilha na mais profunda escuridão. Então percebi que, mesmo sozinho, nunca me sentia solitário. Nunca estive verdadeiramente só. Alguns anos mais tarde, percebi que a motivação para essas aventuras pode ter vindo da minha dificuldade de me relacionar, mas, no fim das contas, foi o anseio por paz, tranquilidade e imersão no silêncio que falou muito, muito suavemente. Na solidão, é muito mais fácil ouvir esse silêncio do que no ruído da cidade e convivendo com outras pessoas. A lição foi reconhecer que tudo está dentro de nós e que tudo o que é importante está presente em cada momento da vida. Pode, portanto, ser reconhecido. Apenas nossas imagens mentais, a confusão de sentimentos e o caos de desejos se acumulam como uma toalha grande, pesada e molhada sobre a alma, sufocando-a. Se quisermos “ouvir” o silêncio da alma, é mais fácil fazê-lo no silêncio exterior, na solidão. Quando fazemos algo exteriormente e também lhe damos um significado interior, um efeito é gerado em nós. Um exemplo disso vem de quando limpamos algo palpável e sentimos um alívio emocional, como se a limpeza externa ‘lavasse a alma'. O ato de caminhar significa percorrer uma paisagem, mas quem experimenta esse exercício sabe que é, essencialmente, um trajeto por caminhos interiores. Da mesma forma que descobrimos novos lugares no exterior, podemos descobrir os pontos cegos de nossa alma. Podemos descobrir, por exemplo, que a beleza exterior pode nos alegrar, mas a resolução de um problema interior nos alegra muito mais. Olhando para nosso interior, podemos perceber que estamos caminhando em direção a nós mesmos. Neste contexto, cada pessoa tem seu próprio caminho, e ninguém precisa vagar sozinho para se encontrar. O importante é trilhar seu próprio e único caminho, pois é para ser percorrido que o caminho se põe. Imagem: polar-aurora:Bild-von-JACQUES-BARBARY-auf-Pixabay CCO

  • September 12 · 1 min

    #231 Se eu pudesse silenciar o tempo

    Se eu pudesse silenciar o tempo Se eu pudesse silenciar o tempo, conspirar contra as horas… Mas o relógio implacável não quer pausar qualquer que seja a história. Impaciente, ele se move barulhento no tic tac do momento e segundo após segundo me arrasta consigo. Torna e retorna. Sem reviravoltas. Sem descontar nada do que foi jogado e perdido. Não há ganhadores no tempo. Porém, não está excluída a batalha. Lutarei, sem desistir Até encontrar o portal que o velho eão não ultrapassa. Atrás desse portal o coração vibra de tal modo que o tempo , conformado se converte, no eterno presente. Photo: by mystraysoul from Pixabay CC0

  • September 3 · 13 min

    #230 Bhagavad Gita: da desesperança à coragem para superar

    BHAGAVAD GITA: DA DESESPERANÇA À CORAGEM PARA SUPERAR Qualquer pessoa pode se tornar e ser um Arjuna Arjuna, um ser humano em busca da verdade O Bhagavad Gita é mais do que um mito ou o relato histórico de uma luta pelo poder em um reino indiano. É a conversa entre o deus Krishna e o príncipe Arjuna, que está às vésperas de uma grande batalha. Foi traduzido para inúmeras línguas e comentado em diferentes culturas. É um dos textos espirituais mais difundidos do mundo. Mas será que ainda há algo a descobrir nele? Este artigo pretende lançar luz sobre uma questão do Bhagavad Gita que nem sempre é claramente expressa, mas que é significativa para todo buscador espiritual: como a desesperança de Arjuna, retratada no capítulo “Não quero lutar”, se transforma na decisão corajosa que ele expressa a Krishna no final do Bhagavad Gita? Por Teu poder divino, ó infalível, destruíste minhas ilusões e agora estou novamente sereno. Livre da dúvida, estou agora firme e desejo agir de acordo com os Teus ensinamentos. [1] No prefácio da tradução inglesa de 1890, William Q. Judge enfatiza que Arjuna não deve ser visto apenas como um príncipe lutando por sua herança, mas também como um protótipo de todo ser humano que busca iluminação e libertação. Além disso, segundo Judge, o Bhagavad Gita descreve a evolução de um povo no sentido de que os instintos inferiores podem e devem ser superados na luta por um destino superior. Arjuna torna-se, portanto, um exemplo do buscador individual e um representante da humanidade que está em processo de busca e desenvolvimento. A “batalha” descrita no Bhagavad Gita não se refere “apenas à grande luta que a humanidade trava, mas também à luta que se torna inevitável assim que qualquer indivíduo humano decide confiar à sua natureza superior a condução de sua vida” [2]. Nesse contexto, o Bhagavad Gita surge como um livro de grande importância para o buscador contemporâneo que almeja a libertação. Como a luta interior de Arjuna pelo reino perdido, o divino dentro de si, se manifesta hoje? Ou: como podemos passar do desânimo e do abatimento à coragem de buscar, encontrar e vivenciar o divino em nós mesmos? A busca pelo divino dentro de nós A apresentação de Arjuna como um "príncipe que perdeu seu reino" é encontrada em muitos mitos da literatura esotérica, bem como em contos de fadas que apontam para outro mundo e tempo. Podemos ver esse mesmo princípio refletido nas histórias de Buda, Parsival, Christian Rosacruz e outros. A percepção de uma perda fundamental, latente nos seres humanos, as perguntas e buscas que daí surgem e a experiência de “estar exilado” em um mundo imperfeito são pontos de partida de toda procura que brota no coração. No Bhagavad Gita, esse estado é simbolicamente retratado pelo exílio de Arjuna em florestas desconhecidas e inóspitas. Tanto Arjuna quanto seus irmãos buscam aliados que possam apoiá-los na luta para reconquistar seu reino, e os encontram nos níveis físico-material e espiritual. A inquietação do coração é o ponto de partida para a jornada rumo à iluminação. Essa inquietação é que nos impele a buscar a verdadeira realeza perdida dentro de nós. Tal busca permite a Arjuna reconhecer Krishna como um ajudante da humanidade e encarnação da alma divina, encontrá-lo dentro de si mesmo e receber seus ensinamentos. Krishna é descrito no Bhagavad Gita como um ser separado de Arjuna, mas que pode ser visto como a voz do coração que adverte, clama e ensina — o guia e mestre que fala a partir do nosso íntimo. Arjuna recorre a essa voz interior para ser instruído, e sua confiança nos ensinamentos de Krishna é a chave que abre a porta do conhecimento. É nesse momento que ele percebe que seu apego a tudo ao seu redor — aos amigos, parentes e desejos terrenos — deve ser superado. O ponto de partida para o diálogo entre Krishna e Arjuna é a percepção da impermanência do mundo e a busca pelo divino. Arjuna, inicialmente, fica desanimado e angustiado com a luta que o espera: Ai de nós, que grande crime estamos para cometer: eliminar nossos parentes, levados pela ambição do poder! Bem melhor seria se nos rendêssemos aos inimigos armados e nos deixássemos matar na luta, sem armas nem defesa! [3] No segundo capítulo, Krishna responde ao desespero de Arjuna: Andas triste por algo que tristeza não merece — e tuas palavras carecem de sabedoria. O sábio, porém, não se entristece com nada, nem por causa dos mortos, nem por causa dos vivos. […] É eterno, permanente, imutável, inconcebível e inalterável […] Alguns consideram o espírito interior um milagre, enquanto outros falam dele com admiração, […] mas ninguém o reconhece. [4] Se transferirmos o desespero de Arjuna para o ser humano de hoje em sua luta pela libertação das amarras deste mundo, a luta será dentro de tal pessoa, e os “oponentes”, ou aqueles a serem mortos, serão símbolos de suas conexões e vínculos com este mundo. Assumir essa luta exige coragem: deixar de lado todos os hábitos e apegos mundanos. Krishna aconselha: “Seja indiferente ao prazer e à dor, ao ganho e à perda, à vitória e à derrota, e entre na luta assim. Renuncie a todo desejo de vantagem e a todo medo de fracasso. Busque equanimidade em suas ações. Permaneça devoto a mim.” Com essas e outras explicações sobre o caminho que leva ao conhecimento da verdade, ou seja, ouvindo a voz do coração, Arjuna age como qualquer outro buscador: inicia a jornada de volta ao “reino original, que não é deste mundo”, como descrito no Novo Testamento. Ouvir a voz interior exige deixar constantemente de lado todos os desejos e apegos a este mundo. A escuta e a atenção interior nos encorajam a perceber os impulsos transmitidos. Será que experimentamos essa coragem dentro de nós? O Caminho do Conhecimento Nos capítulos de 2 a 14 [5] do livro Bhagavad Gita, Krishna explica os principais passos e o conhecimento do caminho para a libertação. Todas as escrituras descrevem o aumento do autoconhecimento em estágios. Nesse caminho, o buscador se aproxima cada vez mais de Krishna e o reconhece como o “Espírito Supremo” que habita nele. Ao se reconectar com esse Espírito Supremo (o ELE, que é inexplicável e indescritível, que transcende toda razão e faz o tempo e o espaço passarem), Arjuna supera sua desesperança, tristeza e dúvida. No capítulo 15, Krishna fala com Arjuna sobre o conhecimento do Espírito Supremo: Eu habito nos corações de todas as pessoas [...] porque estou acima do destrutível e até acima do indestrutível, por isso sou chamado de Espírito Supremo tanto no mundo quanto nos Vedas. Aquele que não é enganado reconhece-me como o Espírito Supremo, conhece todas as coisas e adora-me em todas as formas e condições. É assim que expliquei a vocês [...] essa ciência sagrada. […] Quem a entende [...] torna-se um homem sábio e o fazedor de tudo o que precisa acontecer. [6] O que isso pode significar para as pessoas de hoje? Vivemos em um mundo de luta, ameaçados por desastres ambientais, guerras e novas doenças. A sociedade está dividida; famílias e amizades foram destruídas pela crise do coronavírus. Velhos dogmas, hábitos e crenças já não se aplicam. Para onde tudo isso leva? O que nos espera no futuro? Não poderíamos nos desesperar e nos desanimar como Arjuna? Como ele, estamos abertos o suficiente, já que não perdemos completamente a memória do nosso ser mais íntimo, que não é deste mundo, para que ainda possamos lutar pelo nosso reino interior? “De onde vem seu desânimo?”, diz Krishna a Arjuna. “É degradante. Deixe essa desprezível fraqueza de coração e erga-se.” [7] Será que nós reconhecemos todo o apego a este mundo, nossos medos, preocupações, desejos e vontades como nossos inimigos? Reconhecemos neles os inimigos do nosso verdadeiro eu? Se for assim, podemos nos preparar para o caminho que leva à libertação! Como a Bíblia nos lembra fortemente, todos somos filhos de Deus e chamados à liberdade. Krishna, Cristo e todos os grandes seres no Espírito que nos mostram o caminho e, na maior necessidade, podemos ouvir sua voz dentro de nós, a “voz do silêncio”. É indivisível, incorruptível [...] eterna, universal, invisível. É sem nascimento e não conhece a morte. Permite-se ser prazer e dor [...], vitória ou derrota, não importa [...]. Torne-se indiferente ao sucesso ou fracasso, [...] pois aqueles que desprezam a recompensa por seus atos não nascerão novamente na Terra e entrarão nesse estado eternamente feliz, livre de todas as dificuldades. [8] Da recusa à ação consciente Quando Arjuna se recusava a lutar, estava dominado pela confusão e pelo apego. No final, ele diz, em essência, que agora compreende seu dever e está disposto a agir. Sua coragem não nasce da ausência de medo, mas da clareza que encontrou. Buscar a “voz do silêncio” dentro de nós nos leva ao conhecimento e nos permite trilhar o caminho. Se a ouvimos, recebemos dela a coragem de seguir os ensinamentos adquiridos, como Arjuna fez no final do Bhagavad Gita. REFERÊNCIAS: [1]O Bhagavad Gita (BG), O Livro da Devoção - Ensaios sobre o Gita – Capítulo XVIII -disponível emhttps://www.theosociety.org/pasadena/gita/bg-eg-hp.htm [2] BG: Palavras introdutórias por W.G. Judge 1890, p. VII [3] BG, Capítulo 1: O Desespero de Arjuna, p.5 [4] BG, Capítulo 2: Devoção Baseada em Ensinamentos Especulativos, p. 9/10 [5] Uma descrição dos diferentes capítulos iria além do formato e propósito deste artigo. Por favor, consulte as várias discussões detalhadas do Bhagavad Gita, por exemplo, Bhagavad Gita Buch Empfehlung Übersetzung und Kommentar [6] BG, Capítulo 15: Devoção através do conhecimento do Espírito Supremo, p. 75/76 [7] BG, Capítulo 2: Devoção baseada nos ensinamentos especulativos, p.7 [8] BG, Capítulo 2: Devoção baseada nos ensinamentos especulativos, p.9 Foto:árvores-Bild-von-Joe-auf-Pixabay_CC0

  • August 25 · 1 min

    #229 Não quero falar sobre a natureza

    Não quero falar sobre a natureza Não quero falar sobre a natureza: ela se expressa por si mesma. Quero a memória do que foi esquecido: emprestar meus ouvidos ao inaudível e curvar-me ao silêncio. – Alcançar a fronteira que leva para além do intransponível! Talvez não seja um mero querer. Não se trata, porém, de embriaguez. É a sede da alma, que a natureza não sacia. – É buscar o sentido do vazio para preencher o vazio de sentido! Que o mundo faça seu pedido: pode ser sensato, insistente ou comovido. Mas não há apelo no mundo que me faça trocar a lucidez do despertar pelo sono da ilusão. Photo: Brenkee from Pixabay CC0

  • August 12 · 7 min

    #228 A vida na sala de espera

    A VIDA NA SALA DE ESPERA E se a jornada mais longa não for em direção ao futuro? Passamos a maior parte de nossas vidas em uma sala de espera. Não daquelas com filas de cadeiras e senhas numeradas. É uma sala comprida como um corredor, que se estende entre quem somos e quem esperamos ser. É lá que vivemos e aguardamos. Aguardamos por um momento melhor; pela oportunidade certa; por um amor que transforme nossas vidas, por um trabalho que tenha sentido... Esperamos cura, compreensão e perdão. Aguardamos impulsos espirituais, inspiração e momentos em que a Luz nos toque. Aguardamos por quem pensa e anseia pelo mesmo que nós. Porém, quando finalmente chega o que esperávamos, descobrimos que nosso coração já olha para a próxima porta, cheio de expectativas... É que criamos muitas paisagens imaginárias para nosso futuro. Também sofremos muito por causa da distância entre o que vemos e o que desejamos ver. Entre este momento e aquele que acreditamos que virá. Entre a história que contamos sobre nossa vida e a própria vida. Estamos convencidos de que em algum lugar à nossa frente existe o momento em que a busca finalmente terminará e haverá harmonia total. No entanto, com sua sabedoria, a vida nos deixa na sala de espera até começarmos a entender que, na verdade, não estamos esperando por um evento externo, mas pelo grande encontro com nós mesmos. De repente, percebemos que a sala de espera não é um lugar de passagem. Não existe vida que comece depois. Não existe um momento futuro em que nos tornaremos completos. Só existe este momento, esta respiração. Nossas expectativas dão direção às nossas vidas, inspiram sonhos, criatividade e a coragem para transcender nossos próprios limites. O problema é que, em vez de percebermos a realidade diante de nós, nos concentramos no futuro que imaginamos. Então, a sala de espera parece ser uma prisão. Nossa espera parece interminável por desprezarmos que quando o futuro chega, ele não é mais o futuro. O futuro jamais é vivido. Vivemos apenas agora. Talvez seja por isso que os despertares mais profundos não acontecem quando nossos sonhos se realizam, mas quando não precisamos mais dos sonhos. É quando a pressa interior se cala. Quando passamos a ouvir o que está acontecendo hoje. Aí, a sala de espera começa a desaparecer. Vemos que suas paredes eram tecidas pelos pensamentos e as portas se dissiparam como névoa. Vemos desaparecer todas as imagens que nós criamos a respeito de verdade, plenitude e transformação espiritual Vemos sumir a expectativa de que o mundo atenda aos nossos anseios... Pois enquanto ficamos na sala à espera de chegar nossa vez na vida, não podemos vivê-la verdadeiramente. Enquanto esperamos pela Luz, não percebemos que a Luz está e sempre esteve conosco. Ouvir o que está acontecendo hoje é silenciar a vastidão de barulhos que nos atormentavam. Ao nos deparamos com a percepção de que desejos e imagens do futuro sempre surgem e desaparecem, talvez seja o momento em que o verdadeiro conhecimento comece. É uma questão de transformação da percepção: não estávamos à espera do momento certo de chegar, mas nos defendendo de enxergar algo que sempre esteve presente. Pois o medo mais profundo e resistente do ser humano é a transformação da sua percepção. A transformação do seu pensamento, pois uma nova forma de ver o mundo pode dissolver a imagem que construímos de nós mesmos. Com isso, pode desfazer cada certeza, desmontar cada história cuidadosamente construída. É por isso que ficar à espera parece ser mais seguro. Isso nos permite acreditar que a resposta está em algum lugar fora de nós. Que ainda não precisamos questionar aquilo em que sempre acreditamos. Porém, se surgir uma fissura por onde entre a luz, mesmo que não traga nenhuma informação nova, isso simplesmente transforma conhecimento em experiência direta. Então descobrimos que a verdade estava tão perto que a mente não conseguia perceber. O mais difícil de enxergar é o que sempre esteve presente. Surge a compreensão de que não somos nós que estamos sentados na sala de espera. O espaço onde a espera se manifesta é dentro de nós Com esse reconhecimento, a espera chega ao fim. Descobrimos que só o que existe é este momento, que assume incessantemente novas formas. A sala de espera é construção da nossa mente. Ao invés de uma sala de espera, existe a vida, fluindo sem interrupção, enquanto imaginamos um lugar de espera. A espera deixa de ser vista como uma questão de tempo e torna-se uma questão de consciência. Quando parei de perguntar pelo que esperava, o silêncio se instalou, e nele, pela primeira vez, eu realmente vi onde estava. Não havia destino. Não havia futuro. Não havia sequer um caminho. Apenas a vida. Tão próxima. Tão imediata. Tão presente que, durante anos, eu a confundi com a espera. Foto Camilo Contreras on Unsplash CC0

  • August 5 · 10 min

    #227 A vida quer florescer

    A vida quer florescer – A poesia como beleza criativa Há uma orquídea na janela à minha frente. Foi presente de um amigo há alguns anos. Por muito tempo ela permaneceu ali discretamente, até que, há alguns dias, botões apareceram. Agora, vejo flores abrindo-se em formato de borboleta, e também é possível ver o desenho de uma estrela de cinco pontas. As pétalas são roxas e um delicado branco se estende em direção ao centro, que é amarelo claro. Outro tom de roxo se repete na parte interna da flor e nas bordas externas das pétalas. Sua beleza encanta. A orquídea se abriu de repente, inesperadamente, independente de mim. Isso torna essa visão algo muito emocionante. A flor deu à luz a si mesma com o poder da vida. Ao mesmo tempo, todo o cosmos dança dentro dela. A planta extrai seu sustento da pequena quantidade de terra no vaso, absorve a luz do sol e se nutre com a água que lhe dou. Muitas forças e inter-relações fizeram com que esse final de inverno fosse o momento certo para florescer, como um prenúncio da primavera. Quando uma planta faz isso, é como se a essência, a expressão única da vida, se tornasse visível. Podemos sentir o poder elementar que impulsiona a abertura do botão. Ao observar a orquídea por um tempo, entro em um campo de ressonância. Vê-la abrir-se, revelar-se, desperta em mim a possibilidade de realizar a mesma ação. Sinto que esse poder vital também atua em mim. E com ele, a beleza. Esse fato cumpre uma antiga lei da vida, um princípio eterno: a vida quer florescer. Assim, a planta não é algo que observo ou admiro externamente, mas uma forma em desenvolvimento que vibra e ressoa em mim também. Como humano, também sou um ser em evolução e almejo o desabrochar da minha vida, encontrando o espaço, o ambiente e a vontade para permitir que os dons, talentos e impulsos criativos que residem em mim floresçam, que os botões da minha alma desabrochem. Quem passa por isso encontra uma perfeição que não é uma conclusão, mas uma abertura para o todo, para aquilo que ainda é possível. O nascimento é Uma abertura vinda de longe que me presenteia de perto com a essência do tempo Diz a tua voz que me conduz para casa: A vida é uma só e floresce O sopro eterno Na beleza de uma flor, tocamos um princípio eterno da vida que transcende nossa existência limitada e temporal. Quando percebemos algo como belo, sentimos o sopro de leis e forças. Algo eterno nos toca. É por isso que a beleza pode nos orientar em meio a um mundo de insegurança, destruição, conflito e convulsão. A beleza na natureza, na arte, na humanidade, nas relações e nas ações éticas nos lembra que vivemos em um mundo que anseia por florescer a partir de si mesmo. O milagre é que o mundo é belo, mesmo que nele também existam feiura e escuridão. A beleza existe, e nossa alma anseia por esta verdadeira e permanente beleza que floresce da própria vida, como a própria vida. Nenhuma artificialidade pode substitui-la. Uma pessoa à beira da morte, cujo rosto é iluminado por uma vida plena, pode irradiar um brilho vital impossível de ser recriado. A verdadeira beleza sempre se desdobra de dentro para fora, porque um ser, uma pessoa, uma obra de arte ou uma sociedade expressa a harmonia de seu próprio interior. É por isso que a beleza possui um poder unificador. Grandes obras de arte de diferentes culturas, músicas e poesias podem nos tocar mesmo quando sua forma, linguagem ou som nos são desconhecidos. Em experiências de beleza, como a contemplação de uma flor, reconhecemos nossa interconexão com a totalidade da vida. Florescemos como um só, como UMA vida. Completamente Desperto Nascido na luz em movimento A criação acontece Quando crescemos E nos ultrapassamos No olhar aberto Que nos oferece O que é possível Um grande desdobramento A beleza de que falamos é o sopro da vida. O poder da criatividade pulsa dentro dela, e esse poder também reside em nós. Estamos entrelaçados em um grande desdobramento que conduziu o universo da luz e da energia, através da matéria, à vida e à consciência. Cada flor nessa corrente da vida é bela: as galáxias que vemos com telescópios, as plantas, os animais e as paisagens, assim como o ser humano em sua criação artística, em seus impulsos de compaixão e conexão, em sua busca pelo conhecimento do mundo e de si mesmo. A beleza pulsa nesse processo, de dentro para fora. Quando algo é belo, o poder criativo e a harmonia da vida se expressam. Quando algo é feio, o fluxo da vida é interrompido, amortecido, congelado. Em nosso ser criativo, visualizamos a beleza. Quando nos alinhamos conscientemente com esse poder florescente, sentindo-o interiormente e expressando-o no mundo, poetizamos nossa existência. O poético, compreendido de forma mais abrangente como uma maneira de estar no mundo, vive em ressonância com o belo. Toda obra poética, todo ato poético busca trazer nossa conexão com a vida em sua plenitude para a experiência e para a realização. A poesia trilha o caminho da sintonia estética. Ao escrever um poema, algo no mundo me toca. Fico comovido. Encontro palavras, imagens e metáforas que revelam meu estado de espírito. Mesmo quando escrevo sobre perda ou dor, a beleza pode surgir ao revelar uma conexão. Quando estamos em sintonia com a vida em toda a sua complexidade, com o belo e o doloroso, a vida encontra expressão. Correspondemos, assim, à nossa verdadeira natureza como agentes criativos, como cocriadores de um cosmos em constante desdobramento. A respiração chega. Movimenta internamente a maré alta e a maré baixa do ser. Eu sou o instrumento da música que preenche a Terra e o Céu e nos oferece o que está entre ambos Transformando nossa união A beleza é um todo no qual diferentes partes encontram uma harmonia dinâmica. Os relacionamentos se tornam belos quando nosso próprio florescimento encontra espaço neles e quando o relacionamento se torna uma flor que cultivamos juntos. Isso nos lembra que não somos ilhas isoladas em um cosmos vazio, mas seres entrelaçados com tudo. Uma sociedade e uma comunidade humana também podem tornar-se espaços de florescimento. Cada pessoa pode ter a oportunidade de desenvolver-se livremente, de ser formada interiormente e de manifestar sua verdadeira natureza. Por isso, os espaços de aprendizagem e de desenvolvimento interior são centros de energia social. Uma pessoa se torna bela quando suas capacidades de pensar, sentir e querer, sua corporeidade, imaginação e ação encontram uma harmonia viva. Então, toda a existência se torna um espaço criativo para aquilo que é possível. A flor que poderíamos ser nos chama... E esse é o belo chamado das profundezas da vida, onde verdade, bondade e beleza se encontram e abrem uma dimensão essencial da nossa existência: o espaço do sagrado. No sagrado se dá nosso entrelaçamento com o mistério incompreensível da vida. Maravilhamo-nos. Sentimos reverência. No mistério, a beleza vibra e se revela porque podemos contemplá-la e sermos tocados por ela. Participamos da beleza. Uma vida estética, nesse sentido, é uma existência sensível, perceptiva e poética que deseja o sentimento inteiro, sem anestesia. Pela beleza nós podemos despertar para nossa humanidade e poetizar nosso mundo. Aqui os meus olhos voltam-se para a orquídea na janela. Como toda flor, ela nos convida a entrar no campo de força criativa de onde podemos encantar novamente nossa vida, nossos relacionamentos, nossos pensamentos e sentimentos, nosso ser e nossas ações. Olhemo-nos nos olhos. No brilho do encontro o horizonte abre um presente compartilhado Sentimo-nos livres Juntos, somos sustentados E construímos a terra. O futuro desabrocha Agora. Photo: orchids-Bild-von-Carola68-Die-Welt-ist-bunt-auf-Pixabay_CC0

  • July 1 · 11 min

    #226 A chama interior da oração: reflexões sobre "O Judeu Que Ora", de Chagall.

    A CHAMA INTERIOR DA ORAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE "O JUDEU QUE ORA", DE CHAGALL A oração é o limiar, a abertura através da qual a nova alma pode emergir. Momentos na arte transcendem a forma e a narrativa quando parecem expressar algo universal. A pintura O Judeu em Oração, de Marc Chagall, é um exemplo. Nela, um homem curvado, envolto em um manto branco, está imerso em oração. Não há ação nem palavras. Ele simplesmente está. Quieto, ele ora. Mas o que é a oração? A oração não é uma súplica dirigida a uma divindade distante nem um pedido por favores ou resultados. Na tradição rosacruz, é um movimento silencioso da alma, um ato de escuta, alinhamento e entrega à chama interior. Tal visão está em sintonia com a corrente da Linguagem Sagrada, o conhecimento sagrado revelado por Cristo e, antes dele, por grandes iniciados de diferentes épocas. Como escreve Édouard Schuré em Os Grandes Iniciados, a verdade do Espírito “passa pela alma em silêncio”. A transmissão da sabedoria divina não é de uma religião ou povo específico, mas constitui um legado transmitido àqueles que estão prontos para ouvir. Sob essa perspectiva, a figura retratada por Chagall simboliza o momento eterno em que o ser humano se volta para dentro e escuta. Aqui, não há pretensão de definir a oração, mas aproximar-se dela, ainda que por um instante. À primeira vista, O Judeu em Oração parece uma obra simples. Retrata uma figura solitária em silenciosa reverência, segurando objetos sagrados, com a cabeça levemente inclinada. A imagem remete ao gesto da oração, que pertence a buscadores de todas as tradições. As cores suaves, a ausência de drama e o mínimo de movimento irradiam quietude. Tudo conduz à introspecção. No misticismo judaico, a oração é frequentemente compreendida como um caminho de união com o Divino. O homem retratado por Chagall não está em êxtase. Está silencioso, presente e enraizado. Sua quietude revela um sentido profundo da oração que não é de pedidos nem louvores, mas de permanência diante do invisível. A obra nos convida a contemplar a oração como uma atitude. A oração como um voltar-se para dentro em direção a algo sagrado e vivo. Como ensinaram os grandes iniciados, a verdade se revela na íntima quietude da alma. Nos ensinamentos da Escola Rosacruz Áurea, a oração não é um ato de súplica nem depende de formas, palavras ou rituais. Em vez disso, é uma orientação, um alinhamento do ser interior com o núcleo divino. É a alma se reajustando à sua frequência original. Trata-se de uma recordação daquilo que a alma realmente é. A alma que ora dessa forma não busca persuadir ou direcionar o Divino. Escuta. Entrega-se. E, nessa entrega, abre espaço para que algo superior surja em seu interior. Por isso, a verdadeira oração não pode ser ensinada. Ela é um estado de ser. Como descreve Catharose de Petri em A Palavra Viva, a verdadeira invocação surge de um coração transformado. Ela se torna possível quando a personalidade cessa sua luta e entra na quietude nascida da entrega. Nesse silêncio, a Linguagem Sagrada — a voz do Espírito — pode começar a ser ouvida. O caminho rosacruz descreve esse processo como uma transformação gradual na qual o antigo Eu cede lugar ao novo, não apenas pelo esforço humano, mas pela ressonância com a Luz. É isso que a oração torna possível. Trata-se da abertura de um templo interior preparado para o retorno da chama divina. Visto dessa forma, o homem retratado por Chagall é mais do que um símbolo de devoção. Ele reflete aquilo que todo buscador é chamado a se tornar: um ouvinte silencioso e entregue. Ele se torna a própria oração. Ao longo dos séculos e em diversas culturas, muitas pessoas se voltaram para o interior. Preocupam-se não apenas com a observância exterior, mas com o despertar interior. Por meio deles, o fluxo vital do Espírito continua. Em Os Grandes Iniciados, Schuré descreve essa continuidade como uma tradição espiritual que atravessa os mistérios do Egito e da Índia, passa por Orfeu, Pitágoras, Moisés e os profetas, culminando em Cristo. É um fio vibracional, uma corrente viva de conhecimento sagrado transmitida de alma para alma por meio da transformação interior. No coração dessa tradição está a oração. O verdadeiro iniciado torna-se instrumento do Divino no mundo. Nesse contexto, a oração torna-se uma chama silenciosa, uma receptividade à Vontade Superior. Ela deixa de ser algo pessoal para tornar-se universal. Nasce do reconhecimento da unidade interior. Essa é a oração que vislumbramos em O Judeu em Oração. Embora a figura esteja profundamente enraizada na tradição judaica, ela transcende seu contexto cultural e representa uma experiência humana universal. Sua presença silenciosa expressa a mesma força espiritual que animou os grandes iniciados de todas as épocas. Sob essa luz, a pintura transforma-se em um ícone do caminho interior. Ela fala não apenas aos que pertencem a uma tradição religiosa, mas a todos os que já sentiram o chamado do Divino em seu coração. Recorda-nos que as verdades mais profundas muitas vezes permanecem implícitas. São reconhecidas na quietude. Vivemos em um mundo saturado de palavras, imagens e opiniões. Vozes disputam nossa atenção a cada minuto. Num clima assim, o silêncio pode parecer vazio ou até desconfortável. Contudo, é precisamente nele que algo essencial pode ressurgir. O homem retratado por Chagall não argumenta, não proclama nem persuade. Sua quietude não é passividade, mas sintonia. Ele retorna ao seu santuário interior. Revela uma força que nasce do alinhamento. Para o buscador da Gnose, do conhecimento superior, esse tipo de oração torna-se vital. Somos lembrados pelos ensinamentos rosacruzes de que toda transformação verdadeira começa com um retorno ao interior, uma preparação da alma para que o Espírito possa novamente falar. E a voz do Espírito nunca é estridente. Ela espera pacientemente ser acolhida. Esse é, talvez, o convite silencioso da pintura: perceber o mundo de outra maneira e agir a partir da clareza que nasce da escuta interior. Nesse sentido, a oração torna-se uma atitude permanente da alma. Uma abertura silenciosa que escuta antes de falar e ama antes de julgar. Ela retorna à sua profundidade original e deixa de ser apenas um ato para tornar-se uma forma de ser. Uma transformação. Um estado de ressonância com o eterno. O que Chagall capturou em O Judeu em Oração ultrapassa o tempo e a cultura. É a imagem daquele que se recorda com a alma, daquele que reencontra uma memória profunda de sua origem divina, muitas vezes encoberta pelo ruído do mundo e pelas identidades que acumulamos ao longo da vida. Mas essa memória exige escuta. E para escutar é preciso fazer uma pausa. Por isso, a oração não pode ser dissociada da transfiguração. Ela é o limiar, a abertura por onde a nova alma pode emergir. Não pelo que é dito, mas pelo que é oferecido: uma vida entregue, um coração sereno e um silêncio suficientemente profundo para que a Linguagem Sagrada possa ser ouvida mais uma vez. Talvez seja por isso que O Judeu em Oração nos comove. Ele fala sem palavras e aponta sem gestos. Atrai-nos para sua quietude, e algo dentro de nós se agita. Algo vagamente lembrado. Algo que nos chama de dentro e aguarda uma resposta, silenciosamente, com todo o nosso ser. Referências Chagall, Marc. Minha Vida . Tradução de Elisabeth Abbott, Peter Owen Publishers, 1965. De Petri, Catarose. O Verbo Vivente. Editora Rosacruz. Schuré, Édouard. Os Grandes Iniciados: Um Estudo da História Secreta das Religiões . Tradução de Fred Rothwell, Kessinger Publishing, 1999. Van Rijckenborgh, J. A Gnosis Original Egípcia. Editora Rosacruz. Van Rijckenborgh, Jan e Catharose de Petri. Os Mistérios Gnósticos da Pistis Sophia . Editora Rosacruz. Foto:Marion Pellikaan

  • June 25 · 3 min

    #225 Wu Wei na pintura chinesa

    WU WEI NA PINTURA CHINESA Wu Wei é um termo taoísta que aparece pela primeira vez no Tao Te Ching e é geralmente traduzido como não-ação. É um modo de vida também praticado na pintura chinesa. Nela, o mesmo motivo é pintado repetidamente, como uma montanha ou uma árvore. O que isso poderia ter a ver com o não-ação? Não se torna entediante pintar o mesmo tema várias vezes? Não é o tema ou o resultado da pintura que importa, mas sim o processo. O artista pratica uma atitude perante a vida. Ele busca trabalhar em harmonia com o Tao. Segundo a tradição chinesa, o Tao é o princípio original através do qual tudo é criado e sustentado. É um princípio de uma ordem espiritual-divina elevada, cuja sabedoria transcende em muito a compreensão humana. O pintor orienta-se por esse princípio superior e adapta-se a ele. Ele não quer mais ser o agente, o pintor, mas sim permitir que o Tao atue por meio dele, por meio de sua mão. Ele "faz" e, no entanto, não faz. Ele é ativo na não-ação. Poderíamos também chamar isso de não-intervenção, uma não-intervenção nas leis do Tao. O pintor deixa que essas leis atuem através dele intuitivamente; ele busca unir-se à obra criativa do Tao, reconhecê-la e reproduzi-la no tema da pintura. Através do processo de pintura, ele aprende a discernir até que ponto ainda deseja realizar sua própria vontade ou permitir que o Tao atue dentro dele. Pois o Tao está em tudo; sem o Tao, nada há. Portanto, o sábio se mantém no não-fazer; ele pratica o ensino sem palavras. Quando o trabalho está feito, ele não se apega a ele; precisamente porque não se apega a ele, ele não o abandona. Lao Tzu Photo: Anita Vieten

  • June 10 · 1 min

    #224 Espada do espírito

    ESPADA DO ESPÍRITO Ó nobre guerreiro, escuta em silêncio: Não me despertes sem um justo motivo, não me levantes sem que a coragem arda dentro de ti. Para me empunhar não basta o querer, é preciso alma firme, pois toda lâmina, por mais pura que seja, corta também quem a conduz. A coragem — ah, doce mãe da razão — é fogo sagrado, não fúria em vão. E aquele que vive em verdade é prova viva de que a verdadeira espada não fere, ela ilumina. Ó nobre guerreiro, vence a ti mesmo — e terás vencido tudo. ........ Ó guerreiro sem nome, que desiste até de vencer: o golpe final da tua espada é deixá-la cair — e rir. Imagem: jonatan-sjo-jerling-Odv4JEwpfNU-unsplash

  • May 27 · 7 min

    #223 De uma peça de quebra-cabeça a uma imagem

    DE UMA PEÇA DE QUEBRA-CABEÇA A UMA IMAGEM À minha frente, vejo peças de um quebra-cabeça dispostas sobre a mesa. Se tudo der certo, o resultado será uma bela paisagem. Começo com algumas peças da borda e vou avançando em direção ao centro da imagem. Penso: não somos nós, humanos, como peças de um quebra-cabeça? Cada um tem forma e conteúdo próprios, sentimentos e pensamentos distintos, hábitos e objetivos que variam. Apesar dessa individualidade, estaremos atuando na formação de um novo e belo quadro? Estaremos trabalhando por um objetivo comum, pelo próximo passo no desenvolvimento da humanidade, como se espera da Era de Aquário? Grandes visionários descrevem um objetivo comum para a humanidade e estágios de desenvolvimento que precisam ser alcançados. Alguns falam de paz e liberdade. Outros, de amor fraternal que abrange toda a criação. Diferentemente de um quebra-cabeça, não somos peças prontas que se encaixam para formar uma imagem pré determinada. Como o indivíduo está ligado ao coletivo e as ondas da vida são interdependentes, o desenvolvimento de cada um afeta o cosmos como um todo. Todas as ondas da vida têm suas próprias tarefas de desenvolvimento, mas permanecem conectadas, influenciando-se mutuamente. Assim, por exemplo, sem o mundo vegetal, não teríamos oxigênio para respirar. Sem a polinização pelos insetos, as flores não gerariam novas plantas. Toda a criação se baseia em um único grande plano, que vibra como potencial impulsionador em cada ser. Max Heindel, autor dinamarquês-americano, teosofista e rosa-cruz, fala de sete corpos celestes que passam por sete vezes sete ciclos de desenvolvimento ao longo de longos períodos, alternando fases de atividade e repouso. DIAGRAMA Embora um objetivo seja predeterminado, o desenvolvimento em direção a ele é um processo criativo no qual a liberdade é intencional e a participação é voluntária. Todas as ondas da vida passam por esse processo criativo em grande harmonia e consonância. A humanidade atual desviou-se desse plano divino de desenvolvimento ao usar seu livre-arbítrio para fortalecer seu próprio ego. Por isso, precisa amadurecer pela experiência. Somente então, poderá reconhecer a alma espiritual em desenvolvimento e, assim, servir ao processo de desenvolvimento do cosmos. Então, a humanidade se transformará em peças de um quebra-cabeça que criarão uma nova e bela imagem da humanidade. A humanidade é acompanhada em tudo pela harmonia e unidade do Divino-Espiritual, o que permite que a alma espiritual em cada um, mais cedo ou mais tarde, se expresse — a alma em cuja consciência o todo pode resplandecer. Assim, somos constantemente confrontados com uma escolha. Antes de desejar e escolher algo livremente, precisamos compreender com clareza o que buscamos com nossos pensamentos e sentimentos. Por meio de experiências diversas, aprendemos que a vontade, muitas vezes, produz o oposto do que pretendemos, devido à imprevisibilidade das outras pessoas, das circunstâncias e de nossa própria incerteza. Nossos sentimentos também podem nos enganar, e aprendemos isso por correções internas e externas. Internas, porque nosso eu mais íntimo sabe o que é certo; externas, porque o mundo nos mostra repetidamente o quanto nossos sentimentos estão distantes de perceber e compreender pessoas e coisas a partir de uma perspectiva mais ampla. Somente quando razão e sentimento são purificados pela experiência é que conseguimos nos orientar para o que realmente faz sentido. Isso só pode ser compreendido intuitivamente quando escutamos profundamente nosso interior, pois é ali que reside a resposta. Ela se torna clara à medida que nos purificamos, quando os véus diante do nosso íntimo se tornam mais permeáveis e podemos ouvir e compreender a voz interior. Em seu livro Dei Gloria Intacta, Jan van Rijckenborgh descreve o processo de tornar-se verdadeiramente humano com base em etapas de iniciação. Antes que uma nova vontade possa se sintonizar com o plano divino — o que ele chama de iniciação de Marte —, ocorrem as iniciações de Vênus e Mercúrio. As iniciações de Mercúrio (mente) e Vênus (sentimento) tornam-se patrimônio do novo ser humano. Uma luz de Deus e um poder de Deus lhe são concedidos. Uma nova vontade, forte, equilibrada e dinâmica, passa a direcionar os dons de Mercúrio e Vênus. Ainda assim, após a iniciação de Vênus, a alma espiritual — o novo “companheiro” — ainda não está plenamente formada. Essa plenitude só se revela após a iniciação de Marte, na qual se desenvolve a nova vontade. Quem começa pela vontade segue por um caminho equivocado. Age de modo experimental e forçado. Permanece nos circuitos do condicionamento, como uma peça que não se encaixa organicamente no todo vivo. No entanto, novos aspectos da consciência podem despertar, e uma auto-iniciação no íntimo do ser pode acontecer. Isso conduz à compreensão do que é bom para o organismo humano e para a Terra, para as criaturas e os mundos aos quais estamos indissoluvelmente ligados. A alma em amadurecimento nos transforma em um novo ser humano, capaz de se integrar de forma criativa e responsável ao processo contínuo de desenvolvimento da criação, momento a momento, situação a situação. Cada um de nós é uma peça indispensável do quebra-cabeça desse todo maior. Tudo está à sua espera de que encontre o lugar que só ele ou ela pode ocupar. O impulso para isso vem do Espírito. O Espírito inquieta a alma e a impele ao desenvolvimento. O objetivo é a espiritualização da alma e, em última instância, a espiritualização do mundo. 1 Max Heindel, A Visão de Mundo Rosacruz, Diagrama 8. 2 Jan van Rijckenborgh, Dei Gloria Intacta , Capítulo 6 Imagem: puzzle-Bild-von-Shelby-Herbel-auf-Pixabay CCO

  • May 20 · 9 min

    #222 Beleza - Uma revelação

    A BELEZA - UMA REVELAÇÃO Quando vamos ao encontro da verdadeira Beleza, uma parcela de nossa nobreza interior se revela. Então, um grande anseio desperta em nós: o de nos elevarmos à altura dessa Beleza e dessa Perfeição. Um fio de grama salpicado de cristais de gelo cintilantes. Um céu noturno repleto de estrelas. Uma macieira em flor contra um céu azul-claro de primavera. Um pôr do sol vermelho-sangue. O que faz nosso coração se encher de admiração, maravilhado diante de tanta beleza?Um fio de grama salpicado de cristais de gelo cintilantes. Um céu noturno repleto de estrelas. Uma macieira em flor contra um céu azul-claro de primavera. Um pôr do sol vermelho-sangue. O que faz nosso coração se encher de admiração, maravilhado diante de tanta beleza? Isso parece ser algo próprio do ser humano, pois nenhum animal seria capaz de um sentimento como esse. Enquanto a felicidade do animal depende, acima de tudo, da procura por alimento e procriação, parece haver no ser humano uma busca que se alimenta da beleza. Essa busca incessante tem muito pouco a ver com o pensamento – por mais que este eleve o ser humano acima do animal. Trata-se, na verdade, de alguma coisa que vai além: algo imediato, quase uma comoção que nos toca de repente no mais profundo de nosso ser e nos conecta a um “não sei quê” sublime e verdadeiro, que não pertence à nossa natureza mortal. Todas as grandes obras de arte, sejam elas pinturas, esculturas, literatura ou música, nasceram desse princípio. Quando mergulhamos em obras desse tipo, temos um rápido vislumbre do que significam Perfeição e Eternidade. Elas despertam em nós uma lembrança que já conhece essa Perfeição. Então, um cintilar do Sagrado nos toca – e ficamos sem palavras. O que é esse “não sei quê”? Talvez seja o que Plotino menciona quando diz que há algo no ser humano que se reconhece a si mesmo no sentido literal. É a parte espiritual da alma que toma consciência de que existe e de quem é. Ao contemplar o Ser, ela contempla a si mesma em toda a sua plenitude. Quando vamos ao encontro da verdadeira Beleza no exterior, de repente tomamos consciência de quem somos no mais profundo de nós mesmos: um deus em farrapos; uma pedra preciosa escondida na pedra bruta e cinzenta, que pede para ser desenterrada e lapidada. É então que uma parcela de nossa nobreza interior se torna visível. Então, um grande anseio desperta em nós: o desejo de crescer em direção a essa Beleza e Perfeição – como uma flor que estava coberta de mato, e que descobre pela primeira vez o poder da Luz, que a eleva e permite que ela floresça. É que a Beleza está intimamente ligada ao Amor. Tudo o que é contemplado com os olhos do amor se torna beleza. A pessoa que amamos é, para nós, a mais bela do mundo. Quanto mais estamos preenchidos de amor, mais o mundo ao nosso redor se torna belo. Quanto mais libertamos a pedra preciosa de sua capa grosseira e a lapidamos, mais a beleza de seu interior radiante brilha no exterior. Quanto mais libertamos o Deus-em-nós de seus trapos, para que seu amor possa despertar em nosso interior, mais reconhecemos o esplendor da vida. Portanto, a Beleza não é algo objetivo, pois nasce na mente daquele que a contempla. O que alguém considera belo pode deixar outra pessoa totalmente indiferente. O que é determinante é o que o observador faz com aquilo que percebe. Como a imagem exterior ressoa dentro dele? Será que ele já desenvolveu uma consciência do mundo espiritual? “A beleza é a perfeita harmonia entre o sensual e o espiritual”, diz o poeta Franz Grillparzer. Mas, para percebermos essa harmonia, precisamos possuir, por um lado, órgãos dos sentidos capazes de reconhecer o que é espiritual, e, por outro, órgãos dos sentidos naturais suficientemente despertos para captar os impulsos do exterior. Assim, uma pessoa que se preocupa apenas com sua luta pela sobrevivência terá pouca sensibilidade para as maravilhas que a cercam. E, quanto mais descobrirmos o mundo espiritual, mais beleza descobriremos no mundo exterior. Tudo o que é terreno não passa de uma parábola. E, quando percebemos a realidade que se esconde por trás dessa parábola, a beleza de seu símbolo se revela diante de nós. Mas isso só pode acontecer no aqui e agora. Precisamos estar plenamente despertos neste exato instante, para não perdermos os raios de luz que brotam do mundo espiritual em meio ao tumulto do cotidiano. A beleza que vivemos no passado vai se desvanecendo a cada lembrança que evocamos. O que esperamos de maravilhoso do futuro não passa de uma ideia que criamos – e não vai além daquilo que já conhecemos. Mas é aqui e agora que se encontra a Vida. E ela espalha sua magia por toda parte: só precisamos enxergá-la. Essa Beleza atemporal não pode ser descrita com palavras. Não podemos contá-la a ninguém. Cada palavra a aprisiona em uma camisa de força que retira seu caráter especial e rouba todo o seu brilho. Mesmo quando tentamos contar para alguém, percebemos que só conseguimos transmitir uma pálida cópia do que se revelou para nós como um milagre. Então, só nos resta um sentimento de decepção e perda. É o que sempre acontece com todas as coisas do mundo espiritual que queremos manifestar no mundo material. Elas só podem ser reconhecidas e eficazes no momento presente. Toda tentativa de reter essa felicidade está fadada ao fracasso. Rainer Maria Rilke descreve tudo isso maravilhosamente em seu poema Mir zur Feier (1898): Não precisas compreender a vida: assim ela se tornará uma festa. E deixa cada dia passar como uma criança que, ao caminhar, recebe muitas flores de cada brisa. Esse tipo de Beleza nos inunda, nos deixa perplexos e sem palavras. Não conseguimos compreendê-la – e, além disso, não temos a menor vontade de explicá-la. Para nós, basta simplesmente viver esse mistério. Mergulhamos no maravilhamento e nos esvanecemos nele. É o sabor do prenúncio do mundo espiritual, onde nos tornamos unos com a Beleza, onde o nosso eu perde todo o sentido, onde – fora do tempo, do espaço e dos limites – fazemos parte dessa maravilha. Momentos como esses nos deixam sem fôlego e nos enchem de uma alegria indescritível. São presentes da eternidade – apenas para nós e só para este instante. Foto: ice-crystals-Bild-von-Myriams-Fotos-auf-Pixabay_CC0

  • May 13 · 2 min

    #221 Paz para todos

    PAZ PARA TODOS "A Paz invadiu o meu coração" (Gilberto Gil e João Donato) Buscava pela paz utilizando a sua vontade férrea o esforço individual levado ao limite mas sempre retornava à guerra pequeno ou grande um combate sempre vinha sem avisar arrebatando-o para a luta a vontade pessoal era totalmente ineficaz e, enfim, ele esmoreceu por mais que sua razão insistisse o seu coração o traía pois olhava o mundo à distância desconfiado mas sempre pensava no porquê das guerras nenhum sofrimento é de todos na loucura do mundo extenuado de tanto pensar caiu em desgosto por enfrentar tanta dor e desesperança até que dirigiu-se diretamente para dentro de si em auto investigação o que fez surgir uma clareza interna Naquele átimo de segundo sentiu-se aliviado pois sentiu que não estava só… Mas quem estaria assim tão próximo? Não percebeu ninguém mas foi envolvido por uma sensação incomum de paz que o irmanou a todos e ao mundo inteiro mesmo em relação aos mais irascíveis ou ferozmente amedrontados Oriunda dessa conexão interna com o universal a paz que ele sentiu não era posse individual do seu ser e, não sendo, era expressa por meio de um só verbo que ascende do nadir às alturas mais celestiais Sim, como uma força que inundava seu coração central e subia ao centro de sua alma que prontamente se submeteu Era, então, uma paz definitiva independente do bem ou do mal disponível livre e atemporal estaria acessível a todos era só questão de tempo tempo para o amadurecimento das consciências desejava intensamente isso ao mundo na certeza de que essa paz chegará para todos nós Foto gentilmente cedida por Adriana Ponte à revista Logon.

  • May 9 · 7 min

    #220 Limiar

    LIMIAR Viver no limiar da eternidade A imagem de um limiar se repete em diversas tradições espirituais. Uma porta entre dois cômodos, a primeira luz da aurora antes do nascer do sol, a pausa antes do início de uma jornada — tudo sugere a mesma experiência: o momento entre dois estados de ser. Um limiar sinaliza que uma transição se tornou possível, mas o próximo passo ainda não se revelou totalmente. De certa forma, o Limiar é um lugar de consciência aguçada. Começamos a perceber que os padrões familiares da vida não satisfazem as questões internas mais profundas. Ao mesmo tempo, desconhecemos o que nos espera além deles. No livro As Bodas Alquímicas de Christian Rosacruz, o buscador encontra repetidamente portões e limiares que não podem ser transpostos apenas com esforço. Entrar só é possível quando ele está pronto. O reconhecimento deve preceder a travessia. Portanto, o Limiar representa um momento sutil, mas decisivo, na jornada humana: o despertar de uma consciência interior de que algo novo nos chama. A Luz da Consciência O que possibilita um momento assim é o surgimento de um novo tipo de consciência. As tradições espirituais frequentemente falam de uma radiação silenciosa que envolve a vida humana, mesmo que não a reconheçamos. Ela não interfere em nossa liberdade nem nos impõe crenças, mas está presente como um convite gentil. Essa presença pode se revelar, por exemplo, como uma percepção repentina, um profundo anseio pela verdade ou como a tranquila sensação de que a vida possui um significado que não se reduz a sucessos ou fracassos exteriores. A princípio, pode parecer distante ou incerta, como a tênue luz no horizonte que precede o nascer do sol. Contudo, uma vez notada, é difícil de ser ignorada. É esta consciência crescente que revela o Limiar. Começamos a sentir que existe outra dimensão da vida que nos convida a olhar para além da superfície das coisas. Uma Mudança Interior Quando esta consciência desperta, algo começa a mudar internamente. As questões que surgem já não são ideias abstratas, mas realidades pessoais. Refletimos mais profundamente sobre o rumo e o significado por trás de nossas experiências na vida. Nestes momentos, o Limiar torna-se real. Reconhecemos que viver não é meramente passar por uma sequência de acontecimentos, mas um processo no qual nossa vida interior desperta gradualmente. A tradição rosacruz costuma descrever essa etapa como o início de uma nova orientação. O buscador ainda não enxerga todo o caminho à sua frente, mas algo dentro dele mudou. A antiga certeza começa a ceder lugar a uma profunda busca da verdade. Esse despertar raramente é dramático. Na maioria das vezes, é silencioso e quase frágil, como a primeira luz que surge antes do nascer do sol. Contudo, carrega um significado profundo, pois marca o início de uma resposta consciente às possibilidades mais profundas da vida. Vivendo no Limiar Uma vez que essa consciência surge, a vida raramente continuará a mesma que antes. Exteriormente, os padrões familiares da vida diária podem permanecer inalterados, mas interiormente uma nova sensibilidade começa a se desenvolver. Tornamo-nos mais atentos aos profundos movimentos do coração, e também mais conscientes das questões que moldam nossa vida interior. O Limiar ainda não é a nova vida, mas também não é a velha vida que tínhamos sem questionar. É um momento de tensão silenciosa em que algo dentro de nós começa a escutar com mais atenção. Frequentemente, esse estado traz consigo uma sensibilidade aguçada. Surgem questões que não podem ser facilmente descartadas. O significado de nossas ações, o rumo de nossas vidas e o propósito por trás de nossas experiências adquirem uma nova importância. Contudo, o Limiar não é apenas um lugar de incerteza. É também um lugar de atenção. Viver no Limiar é permanecer consciente do chamado mais profundo que se revelou, mesmo ainda sem compreender seu significado completo. Cruzando o Limiar Transpor o Limiar, fazer a transição para além dele raramente se dá de forma repentina. Com frequência ela se desenrola gradualmente, à medida que o ser humano começa a responder à consciência que despertou em seu interior. Essa resposta pode começar como uma mudança de foco. O que antes parecia insignificante passa a ter significado. A vida interior, que as exigências da atividade diária podem obscurecer, começa a assumir uma nova importância. Quem percebe esse chamado mais profundo acha cada vez mais difícil ignorá-lo. Questões que antes pareciam distantes agora se tornam profundamente pessoais. Desta vez, o Limiar foi reconhecido, e a jornada rumo a uma nova compreensão da vida já começou. Assim, aos poucos ele se torna uma passagem. Gradualmente, entramos em uma nova relação com a vida, na qual a dimensão mais profunda da existência pode iluminar o caminho à frente. Foto: NIR HIMI (@nirhimi) on Unsplash CC0

  • May 6 · 1 min

    #219 A joia oculta no coração

    A JOIA OCULTA NO CORAÇÃO Cansei de brincar de esconde-esconde. Devo partir, e até sei para onde. Para que possas encontrar-me, no teu coração resolvi deitar-me. Ali pareço dormir. Tomara que possas um dia me ouvir. Vivo a implorar bem baixinho: vem, vamos voltar para o ninho! Lá, tudo é graça. Lá o cupido esvoaça, tentando dizer-te no ouvido o quanto és filho querido. Teu retorno só tem um preço. Eu só quero teu apreço. Coloca a primeira pedra e então surgirá uma ponte que te ligará à fonte. Nela poderás transitar, para assim conseguir buscar um pouco da água viva que vai servir de bebida para um longo caminhar. É no teu coração que mora a eternidade. Foto: By beckysmith62 from pixabay CC0

  • April 22 · 1 min

    #218 No cruzamento

    NO CRUZAMENTO Quem sabe? No cruzamento entre o velho e o novo Mais do que alguns esperam Muitos seguem em frente, vivendo a vida plenamente Paixões, desejos, um impulso muito forte Quem tem tempo para pausar, considerar, refletir? Quem tem tempo, quem consegue se conectar? Duas forças, duas vibrações, encontram-se em um só lugar Cada uma diferente, cada uma chamando, cada uma oferecendo um espaço O velho e o novo Percebidos por mais do que alguns? Quem sabe? Quem verdadeiramente sabe? Photo: Tumisu on Pixabay CC0

  • April 15 · 5 min

    #217 Borboletas e Alquimia

    BORBOLETAS E ALQUIMIA Listrada olhou para cada lagarta com muita alegria pois podia haver uma borboleta dentro de cada uma A Sabedoria Universal revela-se de diferentes formas em épocas, lugares e culturas diversas. Uma dessas formas é a alquimia, manifestada na antiga sabedoria hermética de Hermes Trismegisto e também na Idade Média, com a transmutação dos metais. Em um nível puramente espiritual, trata-se de libertar o Ouro do Espírito das amarras da matéria - uma tarefa nobre e venerável que tem cabido à humanidade desde o início dos tempos, e ainda lhe cabe. Este é um processo de revolução e transformação da consciência, uma tarefa que é universal, sempre possível e também muito concreta. A alquimia que se realiza no ser humano é um processo espiritual. Vemos esse processo transformador em todas as escolas gnósticas de mistérios, incluindo a dos cátaros no século XIII, no sul da França, para os quais a transfiguração era simbolizada de forma poderosa pela borboleta que emerge do casulo transformada. Naquela época e hoje, a borboleta foi e é uma imagem do verdadeiro desejo de libertação, um anseio intenso por liberar-se de nosso egocentrismo. Tal transformação exige o abandono consciente da natureza egocêntrica em que vivemos. O conto Esperança para as Flores, de Trina Paulus, é uma história sobre o anseio das lagartas Listrada e Amarela de tornarem-se borboletas — embora, a princípio, nem soubessem o que é uma borboleta. As duas se encontram enquanto sobem em um poste em uma das muitas procissões de lagartas. Em certo momento, mudam de ideia e vão brincar na relva, mas logo Listrada percebe que não consegue deixar de lado a vontade de saber o que há no topo do poste e, por isso, regressa à procissão. Enquanto explora a relva, Amarela encontra uma lagarta anciã pendurada de cabeça para baixo num ramo, envolvida por um casulo. _ Por quê você está assim? - pergunta. _ É para me tornar uma borboleta! Mas Amarela não sabe o que é tornar-se uma borboleta. Após ouvir a explicação da anciã, Amarela pensa que deve ser bom. Pergunta o que é preciso fazer para que ela se torne uma borboleta também. _ Você tem que desejar tanto voar que abra mão de ser uma lagarta para isso – responde a anciã. _ Isso significa morrer? - questiona Amarela. A anciã a olha com ternura antes de responder: _ Sim e não. Parece que você vai morrer, mas, na verdade, continuará vivendo. A vida é transformada, não retirada. Amarela decide seguir sua vontade de transformar-se e, com ajuda e apoio, vai formando seu próprio casulo. Enquanto isso, a lagarta Listrada está subindo lentamente no poste com outras lagartas. O tempo passa. Quando está bem perto do topo, ela ouve: “Não há absolutamente nada aqui em cima!” Nesse momento, Amarela, que agora já é uma borboleta, voa para perto de Listrada. Ver Amarela faz com que Listrada lembre-se das borboletas que havia visto em seu percurso, e ela exclama: _ Nós podemos voar! Podemos nos tornar borboletas! Não há nada no topo, mas isso não importa! Em seu caminho de descida junto à procissão, Listrada olhava para cada casulo extasiada pela possibilidade de haver uma borboleta dentro de cada um. Este processo de transformação é possível para todos, com base no anseio que existe em nosso interior. Durante essa transformação do ser humano, uma consciência totalmente nova surge. Essa oferta de si mesmo à Luz permite a fusão de Jesus com o Cristo. A vitória é, então, total: em termos alquímicos, o ouro do espírito torna o chumbo da natureza inferior em ouro. O ser humano, que era anteriormente uma matéria inerte, torna-se ouro vivo na eternidade. A transformação, ou transfiguração, torna-se tão completa quanto o surgimento milagroso da borboleta. Foto: por Xuan Nguyen no Pixabay

  • April 8 · 5 min

    #216 Voos, prenúncios da nova vida

    "Uma vez que provares o voo, andarás para sempre na Terra com os olhos voltados para o Céu. Pois lá estivestes, e lá sempre ansiarás voltar." John H. Secondari O voo mencionado por da Vinci pode ser comparado à experiência relatada por Eckhart Tolle na Introdução do livro O poder do Agora, de sua autoria: a vivência de um estado de intensa paz e alegria, com nova e viva percepção de todas as coisas. Quem experimentou esse voo, sabe que se trata de uma profunda mudança interna. Quando é aberta a porta para se enxergar cada coisa com mais luz e beleza, é que nos damos conta do torpor em que antes nos encontrávamos sem perceber. E como sugere da Vinci, uma vez vivenciado, para sempre se almejarão novos voos. A duração de um voo pode variar e, sem dúvida, o primeiro é o mais marcante, porque nele tudo é novo. O início de um voo pode ocorrer, após um período de profundo anseio por iluminação, mediante uma súbita mudança na respiração, que se acelera e intensifica até que alcancemos um novo estado interno, de forma natural, sem a indução por quaisquer técnicas ou substâncias. Nesse momento, pode haver uma transição da respiração comum, meramente pulmonar — aquela que se dá no nível físico, mecânica e inconsciente, sustentando apenas o funcionamento biológico — para uma respiração mais sutil, conhecida por algumas tradições como respiração magnética. Esta ocorre no nível etérico, um plano mais sutil de existência, e não se baseia apenas na entrada e saída do ar, mas na captação e circulação de forças vivas, muitas vezes chamadas de prana, chi ou fluido vital. Durante esse processo, a respiração torna-se ritmada de modo espontâneo, como se fosse guiada por uma inteligência interior. Em vez de ar, é como se o ser inteiro inspirasse luz, energia ou um sopro vivo que preenche não apenas os pulmões, mas o espaço entre os pensamentos, despertando centros sutis e promovendo um realinhamento profundo. Esse estado pode vir acompanhado de leveza no corpo, sensação de expansão, percepção ampliada e intensa clareza emocional e espiritual. Enquanto a respiração pulmonar está vinculada ao oxigênio e à sobrevivência do corpo físico, a respiração magnética está ligada ao alinhamento com o ser essencial e à elevação do estado de consciência. É neste ponto que o voo se inicia: não como evasão do mundo, mas como acesso a uma dimensão mais real e vibrante da própria existência. É claro que essa experiência tem alguma semelhança com os estados alterados de consciência experimentados a partir do uso de entorpecentes; contudo, essa possibilidade é algo indesejável, seja pela insustentabilidade dessa prática devido às consequências para o estado de saúde, seja pelo inconveniente da dependência química. A prática do uso de substâncias químicas ou orgânicas, para se chegar a certos estados de consciência mais amplos, forja estados de percepção ilusórios, não sustentáveis, e age de fora para dentro, e nunca como um processo interior e estrutural de mudança. Daí a advertência bíblica, que diz: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador.” João 10:1 A pureza do estado sanguíneo, como é ensinado por autênticos instrutores da humanidade, é condição para o progresso sustentável na direção de uma ligação permanente com o que da Vinci chamou de Céu. A meta, pois, é transformar, o que antes era apenas voos, em nova condição permanente de ser. Oxalá, realizemos, todos, essa mudança de estado de ser. Photo: Anonymous

  • March 25 · 11 min

    #215 O exílio como preparação

    O EXÍLIO COMO PREPARAÇÃO O exílio não é imposto, é escolhido Algumas pessoas atravessam a vida com uma sutil sensação de distância, uma consciência silenciosa de que não coincidem por inteiro com a superfície do mundo. Participar dele vem com relativa facilidade. Aprende-se a falar, a trabalhar, a pertencer exteriormente. Ainda assim, mesmo nos momentos de conforto, algo permanece levemente apartado. Entra-se no mundo como um estrangeiro, mas nunca se passa a habitá-lo por completo. Essa distância costuma ser mal interpretada. Não é insatisfação, nem nasce de recusa. Não carrega julgamento do mundo nem sentimento de superioridade. Ao contrário, aguça a atenção. A vida é provisória, significativa, mas nunca se basta em si mesma. Aos poucos, a palavra exílio começa a se impor, não como punição ou queixa, mas como uma maneira de estar na vida sem se entregar totalmente às suas expectativas. Um deslocamento interior sem ressentimento, apenas atenção. O exílio não se anuncia. Não tem drama. Ele se expressa por uma sensibilidade silenciosa aos limiares, aqueles momentos em que o mundo parece mais fino, quando algo essencial se aproxima. O estrangeiro não procura esses instantes. Eles chegam por si. O que parece distância é, na verdade, uma forma de cuidado. Uma hesitação em reduzir o sentido a imediatismo. Uma recusa em permitir que o visível defina o que é real. O que aparenta ser distância é, na verdade, uma forma de cuidado. Uma hesitação em reduzir o significado a algo imediato. Há uma textura própria nesse modo de viver. O tempo se desenrola menos como uma sequência de exigências diárias e mais como um campo por onde a atenção se move. A necessidade de definir ou reivindicar um significado rapidamente não domina. Os momentos permanecem abertos, inacabados. Não é indecisão, mas contenção — uma intuição de que o que mais importa não pode ser apressado sem que empobreça. A vida segue, silenciosa, ao lado dessa consciência: comum, sem grandes gestos, mas vista de um ângulo ligeiramente diferente, como se algo essencial aguardasse logo além do limite do que pode ser dito. Alguns lugares ‘reconhecem’ essa condição antes mesmo que ela receba um nome. Não a explicam nem a resolvem — encontram-na. E nesse encontro, a sensação de distância se suaviza porque deixa de ser mal compreendida. EIN GEDI Ein Gedi, no deserto de Judá, pertence a uma outra ordem de espaço. Há um oásis que brota da pedra do deserto. A água corre onde não deveria e o verde é comprimido entre o calor e a rocha. Muito antes de se tornar destino turístico ou símbolo, essa paisagem pertenceu àqueles que escolheram a proximidade do silêncio, da disciplina e do que entendiam como divino. Sua presença permanece. Nomeada ou não, ela ainda está ali. Nesse espaço, sente-se chamado por algo ainda vivo na própria terra. Há uma sensação de que ela compreende o que significa manter-se interiormente vivo enquanto se está exteriormente exposto. Israel, nesse sentido, não é uma ideia nem uma identidade, mas terra — luz sobre a pedra, caminhos antigos, proximidade através de camadas de tempo. Em lugares assim, o exílio adquire um sentido que não é o de separação, mas de orientação. O estrangeiro não está de passagem. Ele é silenciosamente reconhecido. TERRITÓRIO CÁTARO No sul da França, o território cátaro oferece um paralelo em outro registro. Não apenas porque perdura, mas pelo som, pelo silêncio e pelo ocultamento. São paisagens moldadas pela necessidade de preservar algo vital sem expô-lo; preservar não por declarações, mas pela atmosfera. Aqui, a música importava. Os trovadores cantavam ao invés de fazer pregações. O que não podia subsistir como afirmação encontrava abrigo no tom, no ritmo e na cadência. O sentido era tecido. Quem podia ouvir, ouvia. Quem não podia, não era coagido. As cavernas não eram apenas refúgios, mas limiares. Cavernas acusticamente vivas, receptivas ao silêncio. Nesses lugares, a escuta se intensificava, aguçada pela separação. Não se tratava de fugir do mundo, mas de modos de percebê-lo mais por dentro. Nesses espaços, o som se reúne em vez de se dispersar. A música permanece, retorna, dobra-se em direção a quem escuta. O silêncio torna-se uma presença. Esses lugares ensinam outra economia — na qual menos carrega mais, e o que é retido se aprofunda em sentido. A transmissão aqui não depende de explicação, mas de ressonância. O que deve perdurar o faz por proteção, por uma espécie de maturação interior fora do alcance do mundo exterior. Aqui, o exílio torna-se um gesto de cuidado — um afastamento consciente para preservar o que é interiormente verdadeiro. É como fidelidade que o estrangeiro reconhece isso, não como evasão. O que resta no país cátaro é uma atmosfera carregada por vidas vividas em silencioso alinhamento interior. A divisão entre o dentro e o fora é respeitada. PATMOS Patmos não é apenas um mito ou uma ilha no Mar Egeu, mas uma forma de solidão que clarifica a visão. Aqui, a urgência afrouxa. As exigências recuam. A alma se aquieta o suficiente para voltar a perceber. Assim como Ein Gedi e as cavernas cátaras, Patmos é um lugar de aprofundamento, não um retiro. Sua distância é um modo de aprofundar a percepção. Entrar nessa condição é reencontrar o mundo sem distração. O ruído continua, mas deixa de definir a realidade. É um tipo mais sutil de atenção desperta. Nesse sentido, o exílio não é uma escolha para evitar o mundo, mas para criar o espaço a partir do qual ele possa ser verdadeiramente visto. A visão cresce pela clareza que o silêncio permite. O estrangeiro reconhece Patmos como familiar — um estado em que se vê com clareza e se preserva o alinhamento sem necessidade de explicação. A partir dessa clareza, a participação também se transforma. A vida é vivida mais plenamente, sem posse. A presença substitui o apego. O engajamento se aprofunda. TEMPLOS Com o tempo, descobrem-se lugares onde essa orientação já foi vivida, onde a condição do exílio não exige justificativa. Não são refúgios, mas templos construídos pela repetição silenciosa e pela fidelidade interior ao invés de doutrina. Um templo, nesse sentido mais profundo, não é imposto de cima. Ao contrário, cresce organicamente por vidas voltadas para dentro, por atenção compartilhada, por um trabalho invisível. Nesses lugares que não persuadem, que sua própria existência basta, o estrangeiro se sente menos estranho: sua distância é compreendida. O que importa é a dedicação e não a crença; a constância, não a certeza. Uma vida orientada de modo contínuo para aquilo que é mais profundo do que o momento ou o humor. O exílio clarifica. A distância permanece, mas sua qualidade muda. O que antes parecia ausência torna-se liberdade. O que parecia perda torna-se perspectiva. Viver assim é caminhar com leveza. Amar sem possuir. Participar sem agarrar. O mundo continua urgente, mas suas exigências já não têm total domínio. O estrangeiro não abandona a vida. Permanece nela de outro modo. E, uma vez reconhecida essa diferença, nada mais precisa ser dito. Photo: Ben Wicks on Unsplash CC0

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