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Artwork for Didascália

Didascália

Luís M. Figueiredo Rodrigues

O substantivo “didascália”, no Novo Testamento, significa “ensino”. Entendido quer como ensino ou instrução em geral (cf. Mt 15, 9); quer como ensino conforme à doutrina dos Apóstolos (cf. 1Tm 15, 7). Foi este último caso que mais nos inspirou.
Atualmente, “didascália” significa também as anotações que numa peça ou guião, não fazendo parte do diálogo, servem para dar instruções aos atores, encenador, cenógrafo ou outros intervenientes na produção.
É este o objetivo deste podcast: sendo fiel ao verdadeiro ensino, ajudar os diversos atores a viver o seu discipulado cristão.

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  • 20 episodes
  • Avg 17 min
  • Portuguese
  • July 25 · 26 min

    A transparência enquanto valor da fé: Entre o mistério, a verdade e a responsabilidade

    Permitam-me começar por uma palavra que, talvez por parecer demasiado evidente, corre o risco de já não ser verdadeiramente considerada: transparência. Hoje, invocamo-la quase como um critério absoluto de legitimidade. Tudo deve ser transparente: as instituições, os procedimentos, as decisões, as relações, os discursos, até os gestos mais íntimos da vida pessoal e comunitária. Mas talvez seja precisamente aqui que começa a dificuldade. Nem toda a transparência é verdadeira claridade. Há formas de exposição que não iluminam, apenas devassam; há exigências de visibilidade que não libertam, apenas controlam; há discursos sobre a verdade que, em vez de servirem a confiança, alimentam a suspeita permanente. Quando a teologia, como exercício de refletir sobre a fé, entra neste diálogo, não o faz para diminuir a exigência de verdade ou de responsabilidade. Pelo contrário, fá-lo para impedir que a transparência seja empobrecida e convertida num simples mecanismo de vigilância. A fé recorda-nos que a pessoa humana não é integralmente redutível ao que se mostra, que o mistério não é sinónimo de ocultação e que a confiança não nasce da devassa, mas de uma verdade habitada com responsabilidade, pudor e cuidado. É neste horizonte que gostaria de situar esta intervenção: pensar a transparência não apenas como requisito institucional, mas como questão antropológica, ética e relacional. Uma questão que toca o modo como nos expomos, como respondemos uns pelos outros e como deixamos que a verdade se torne, não instrumento de domínio, mas lugar de encontro.

  • March 11 · 33 min

    Traçar novos Mapas de Esperança

    Falar hoje de educação, à luz de Traçar novos mapas de esperança, é reconhecer que não estamos perante um texto apenas comemorativo, mas diante de uma releitura exigente da Gravissimum educationis. O ponto de partida é decisivo: a educação não é uma atividade acessória da Igreja, mas a própria trama da evangelização. Educar não é um serviço lateral. É um dos modos concretos através dos quais o Evangelho se torna gesto, relação, cultura e futuro. A Gravissimum educationis já afirmava a importância decisiva da educação na vida humana e no progresso da sociedade. Mais do que transmitir conteúdos, a sua preocupação era formar a pessoa humana na totalidade da sua existência. É esta visão integral que o documento recente retoma e atualiza. Num tempo marcado pela eficiência e pela pressão dos resultados, Traçar novos mapas de esperança recorda que a pessoa não se reduz a competências, a um algoritmo ou a um desempenho mensurável. Cada ser humano é rosto, história e vocação. Por isso, a crise educativa de hoje não é apenas pedagógica. É, antes de mais, antropológica. Daqui emerge uma consequência decisiva: a escola não pode ser entendida apenas como uma estrutura organizativa ou como um centro de serviços. Ela é comunidade educativa. A Gravissimum educationis falava da escola como centro em cuja vida devem participar famílias, professores, sociedade civil e comunidade humana. O novo documento intensifica esta visão ao afirmar que ninguém educa sozinho e que a comunidade educativa é um “nós”. Num contexto marcado pela fragmentação das relações, a escola é chamada a reconstruir pertença, cooperação e aliança educativa. Neste quadro, a família continua a ocupar um lugar insubstituível. Os pais são os primeiros educadores dos filhos, e a escola deve colaborar com eles, não substituí-los. Uma escola verdadeiramente educativa não enfraquece a família: fortalece-a. Outro ponto central é o da cultura digital. Já o Concílio reconhecia os progressos da técnica e dos meios de comunicação como oportunidades relevantes. O documento atual mantém esta abertura, mas sublinha que a tecnologia deve servir a pessoa e não substituí-la. Quando o digital ocupa todo o espaço e a aprendizagem perde a espessura da relação humana, a educação empobrece. Nenhum algoritmo pode substituir aquilo que torna verdadeiramente humana a educação: a imaginação, a arte, o amor, a poesia, a interioridade. Educar hoje implica formar para um uso sábio da tecnologia e da inteligência artificial, colocando sempre a pessoa antes do algoritmo. Mas a escola mede-se também pela sua relação com os mais frágeis. Traçar novos mapas de esperança afirma, com grande força, que perder os pobres equivale a perder a própria escola. Não se trata apenas de fazer obra social, mas de reconhecer que a verdade de uma instituição educativa se verifica também na sua capacidade de incluir e de não se organizar segundo lógicas elitistas. Finalmente, esta reflexão converge na missão dos professores. Já a Gravissimum educationis reconhecia que deles depende, em grande medida, que a escola realize a sua missão. O novo documento reforça esta convicção, lembrando que, nos educadores, vale tanto o testemunho como a lição dada. O professor não é apenas transmissor de matéria. É mediador de sentido, guardião da relação pedagógica e presença que encoraja. Num mundo saturado de informação, o educador torna-se ainda mais necessário como testemunha de humanidade e coreógrafo da esperança. No fundo, a grande proposta destes dois textos pode resumir-se assim: a educação só permanece fiel à sua vocação quando coloca a pessoa no centro, reconstrói comunidade, humaniza a técnica, não perde os pobres e sustenta a missão dos professores. A Gravissimum educationis continua a oferecer a bússola. Traçar novos mapas de esperança ajuda-nos a ler o terreno presente. E a escola do futuro só será verdadeiramente escola se não se limitar a instruir, mas souber gerar humanidade, abrir futuro e dar forma concreta à esperança.

  • February 1 · 7 min

    IV Domingo do Tempo Comum - Homilia

    [Homilia proferida na Sé de Braga, na comemoração do Dia da Universidade Católica Portuguesa] Hoje celebramos o Dia da Universidade Católica Portuguesa e começamos por uma ideia simples: uma universidade não é apenas edifícios, cursos, reuniões e publicações; é um modo de estar no mundo e um lugar onde se decide, todos os dias, que tipo de humanidade queremos servir. A Palavra de Deus recentra-nos. Sofonias fala de um povo “pobre e humilde”, que procura refúgio no nome do Senhor, onde já não há mentira nem linguagem enganadora. São Paulo lembra aos coríntios que não há muitos sábios, influentes ou bem-nascidos e, no entanto, Deus escolhe o que parece fraco e desprezível, para que ninguém se glorie diante d’Ele. E Jesus, no alto do monte, proclama as Bem-aventuranças: felizes os pobres em espírito, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz. Isto desafia a lógica do prestígio, da visibilidade e do estatuto e faz-nos um “reset” interior: não confundir valor com aplauso, sabedoria com vaidade, excelência com superioridade. A história de Deus sustenta-se na verdade, na humildade, na justiça, na misericórdia e na paz; as Bem-aventuranças não são apenas ideias bonitas, são o retrato do rosto de Jesus e um modo de viver. Numa universidade, isto torna-se muito concreto: não conta só o que sabemos, mas o que fazemos com o que sabemos. Por isso falamos de diaconia da cultura: a presença cristã no mundo cultural não existe para se defender, mandar ou dominar; existe para servir o que sustenta a humanidade comum — linguagem, sentido, convivência e futuro. A universidade não é um território a conquistar; é um ecossistema vivo a cuidar com paciência, discernimento e coragem para processos longos. Ser católica não é um rótulo: é habitar o conhecimento de modo integral, onde razão e fé, competência e consciência, rigor e sabedoria se iluminam mutuamente. A Universidade Católica Portuguesa é chamada a ser mais mesa do que tribuna: um lugar de escuta plural, onde se acolhem perguntas difíceis sem as reduzir a slogans, onde se aprende a argumentar sem agredir e onde a excelência nunca se separa do bem comum. Isto joga-se no ensino, na investigação e na presença pública: formar para além da utilidade imediata; produzir ciência com responsabilidade social, sem tecnocracia nem moralismo; e dialogar com a sociedade, incluindo as periferias culturais e sociais, sustentando conversas difíceis e ajudando a despolarizar o espaço comum. Para isso, precisamos de um programa simples: desarmar a palavra, levantar o olhar e guardar o coração. Desarmar a palavra é rigor sem violência, crítica sem humilhação, debate sem caricatura do outro. Levantar o olhar é recuperar horizonte num tempo em que o digital nos prende ao imediato e nos rouba profundidade. Guardar o coração é levar a sério a interioridade: sem vida interior, a formação vira mera instrução; sem silêncio e discernimento, a cultura vira ruído; sem cuidado do coração, a técnica torna-se poder sem domínio e a política degrada-se em cinismo. Também aqui entra a responsabilidade do digital e da inteligência artificial: servir a cultura é distinguir inovação de verdadeiro progresso humano, proteger a pessoa de ser reduzida a dados, denunciar novas exclusões algorítmicas e recordar que a eficácia não basta para orientar a vida comum. E esta diaconia só é completa com atenção preferencial aos que ficam de fora, para que o acesso ao conhecimento não seja privilégio. Por isso, a palavra de São Paulo é desafio e libertação: “quem se gloria, glorie-se no Senhor”. Peçamos, nesta Eucaristia, que o Senhor conceda à Universidade Católica Portuguesa ser pobre em espírito e rica de misericórdia, firme na justiça e delicada na palavra, contemplativa no olhar e vigilante no coração, e que nos dê a alegria simples das Bem-aventuranças: a alegria de servir com verdade, cuidado e esperança.

  • January 5 · 13 min

    Cuidar da liturgia para cuidar dos membros da comunidade

    O texto apresenta a liturgia como o alicerce vital da experiência cristã, definindo-a não como um mero adereço, mas como o ato público fundamental onde a Igreja se reconhece e se constitui. Através de uma análise profunda, explora-se a forma como a celebração ritual educa o indivíduo integralmente, utilizando símbolos e mediações sensíveis para transformar a fé num estilo de vida concreto. O documento sublinha a importância da assembleia como sujeito ativo, rejeitando tanto o clericalismo como a improvisação em favor de uma participação consciente e orante. A Eucaristia é destacada como a origem de uma ética da gratuidade, que deve transbordar para a vida quotidiana sob a forma de cuidado e comunhão. Por fim, defende-se que uma formação litúrgica sólida é essencial para que os ritos se tornem espaços de serenidade e inclusão, resistindo ao utilitarismo da cultura contemporânea

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